Crônicas de Contonópolis: A Guerra dos Sonhos
Parte 12
Por Gehenna
Deus Ex Machina
Aquele enorme quarto com chão e paredes rochosas estava coberto por sedas e almofadas, bebidas e perfumes das mais variadas origens. Dezenas de mulheres belíssimas, jovens e maduras, nuas e semi-nuas, se espalhavam servindo seu senhor, não apenas com vinhos licores, mas também com o lendário elixir da juventude eterna que Teodoro recebera de seu senhor, em troca dos serviços prestados.
O cavaleiro se deleitava com os prazeres conseguidos, quando foi interrompido pelo enorme negro vestindo mantos que entrara no aposento. A simples presença dele intimidava. Teodoro o odiava. Aquele brutamontes era um estúpido negro que vendera sua alma ao diabo. Invadir seu quarto era um ultraje, para o cavaleiro do Templo de Salomão. Ele controlava os espectros, mas Contonópolis já havia sido subjugada. Não entendia porque o Devorador mantinha aquele verme vivo.
“Aproveitando sua estadia, Teodoro?” Ceifador disse com sua voz de trovão, sob o capuz negro que jogava sombras sobre a face pintada como uma caveira.
“O que faz em meus aposentos, bruxo?!” Teodoro perguntou irritado, já apanhando sua espada.
“Estou apenas verificando se está ciente de que isto não vai durar”.
“Estás a me ameaçar, facínora?!”
“Você está mesmo do lado do Devorador, não é? Sua história é longa, com início, meio e fim. Você morre no final. Se agarrou na única esperança que tem. Vejo até que está se fartando de elixir, na esperança de que seu destino nunca se degrade, como o deus-lobo havia decidido para ti”.
“Estás a dizer que não está mesmo com o Inominável? Mas isso é ótimo! Estava mesmo atrás de um motivo para dar um fim a vida maldita de um infiel como tu! Sharia, ataque!”
De repente, uma mulher morena, de cabelos pretos e olhos escuros, que jazia nua ao lado de Teodoro, apenas prestando atenção à conversa, se transforma em uma enorme dragoa negra e voa na direção do Ceifador pronta para devorá-lo. Rápido como uma serpente, o enorme negro salta se esquivando do ataque e fazendo surgir em suas mãos uma foice, usando-a rapidamente contra o olho do monstro, enterrando a grande lâmina e atingindo-lhe o cérebro. Um único golpe e a dragoa estava morta.
“Não foi ao seu chefe que vendi minha alma, cavaleiro. Diferente de ti, minha história ainda não terminou. Só vim dizer que te admiro”. Disse Ceifador de pé sobre o cadáver draconico, antes de desaparecer no ar.
“Mas sua história tem um fim!” Disse ao surgir magicamente atrás de Teodoro, enfiando-lhe a foice no ventre e prendendo sua lâmina na fresta de dois blocos de pedra que compunham o chão. O cavaleiro gritou em agonia e xingamentos, ao se ver preso e com as tripas cada vez mais dilaceradas com seus próprios movimentos.
“Seria horrível tirar isto dela. Será um prazer te ver definhar e morrer novamente quando tudo isso terminar”. O Avatar dos Sete Pecados se dirigiu então para a saída, passando por inúmeras mulheres assustadas, sem desviar seu olhar para elas em um só momento.
“Maldito! Cuspirei em seu cadáver, seu satanista miserável! Ou melhor, sodomizarei sua meretriz, enquanto você estiver sendo consumido e obliterado pelo Inominável!”
“Apenas mande um recado, Teodoro”. Ceifador disse, retirando de baixo do manto um enorme revólver prateado com entalhes em dourado. Antes de falar, ele sorriu com satisfação. “Deus Ex Machina”.
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“Não foi boa idéia abandonar Daniele, Sean e Chukro petrificados”. Gehenna disse, enquanto os contistas se acomodavam na taverna abandonada de Asriel, para descansar da jornada.
“Você se esqueceu de Aka e Le Petit”. Disse Dahak, com dificuldades, incapaz de se acostumar com a ausência de suas bolas.
“Que seja. Tínhamos de trazê-los de volta. Num ambiente anti-mágico e com nossos níveis de poder, eles eram nossa única proteção. Se formos pegos por qualquer tropa de espectros ou personagens comandados pelo Devorador, estamos perdidos”.
“Não ssseja tão pessssimista, chefe. Você ainda tem seu fanboyzismo lutador e eu meus instintos lupinos, então... hmm... é, estamos perdidos”.
“Estou sentindo algo estranho”.
“Sentido de perigo? Acha que nosssso persssseguidor essstá tramando algo?”
“Não. Mas é vontade de mijar. Raramente, em uma história, sente-se vontade de mijar, se não for ocorrer algo durante a mijada. Fiquem atentos. Se eu não voltar em cinco minutos... hã... bem, façam o que achar melhor”.
Gehenna sai da taverna e faz o que devia, mas assim que se vira para voltar para dentro, percebe um homem enorme saindo de trás da construção e se mostrando. Gehenna sabia quem era o perseguidor. Podia senti-lo. Era sua criação. Ceifador.
“Boa Noite, chefe”. Soou a voz de trovão.
“Pensei que estava chamando outro por esse título”.
“Pensou errado. Sabe disso”.
“O que quer? Não veio nos matar, senão já o teria feito”.
“Sabe que eu nunca mataria meu criador. Estou aqui para mais um Pacto”.
“Pelo que vi, personagens fora da alçada do Devorador foram petrificados. O Sete Pecados estão fora de seu alcance, Ceifador. E mesmo se estivessem, porque diabos acha que eu deixaria você se fortalecer agora que está contra mim?”
“Use sua cabeça, chefe. Sei que você pode, mesmo estando fraco e com baixos níveis de criatividade. O Pacto é com você. Uma pequena troca de favores”.
“Hã... Claro, eu sabia. Faça sua proposta”.
“Faça de mim o que eu devia ser. Você se baseou em um ‘gigante’ para me criar. Me permita seguir seus passos. Um homem forte, inteligente e bem treinado, vestido de preto e desaparecendo na escuridão da noite. Você sabe que eu devia ser mais do que tem me oferecido. O ‘gigante’ também já esteve em uma cadeira de rodas e se recuperou. Dê-me o que quero e eu te dou o que quer”.
“E o que eu quero?”
“A Mão de Deus, a única arma que pode ferir o Devorador”.
“Você a tem!”
“Eu a roubei. Se tivesse deixado com a ruivinha, provavelmente o Devorador a teria pego. Aceite minha proposta e terá seu Deus Ex Machina para esta história. Recuse e volte a procurar uma solução improvável, como um grande ritual ou um exército saído de lugar nenhum. Você sabe que suas opções contra aquele monstro não são muitas”. Gehenna olhou no fundo dos olhos avermelhados do Ceifador. Ele não podia mentir para seu criador. Apertaram as mãos.
“Feito”. O contista disse, enquanto pensava em sacanear sua criação dando-lhe também um parceiro mirim.
“Obviamente, ela não está comigo agora. Mas você a terá no momento apropriado. Sugiro que busque um lugar onde tenha alguma vantagem estratégica”. O Ceifador, então, desapareceu na escuridão. Gehenna se virou para entrar na taverna e, assim que abriu a porta, foi alvo de um montinho feito por Lobo Branco, Dahak e Malka.
“Pega!” – “Mata!” – “Esfola!”
“Saiam de cima de mim, seus filhos da mãe!”
“Passaram mais de cinco minutinhos. Resolvemos fazer um montinho”. Malka se explicou.
“Que idéia imbecil é essa?!”
“Pensssamos ser uma ameassça, chefe. Vosscê disssse para fazer-mos o que achásssemos melhor”.
“Da próxima vez, vamos criar uma senha de segurança”. Concluiu Dahak.
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Ele não tinha mais um nome. Mal tinha uma forma. Era uma coisa razoavelmente humanóide, aparentemente feita de inúmeros retalhos das vítimas que consumira. E mesmo assim, esses retalhos ficavam se metamorfoseando em retalhos diferentes, a todo instante. Era impossível olhar diretamente para ele e manter a sanidade. Era o Devorador de Criatividade, o Inominável, o Novo Senhor Absoluto de Contonópolis.
“Meu Senhor!” Gritou Teodoro, após conseguir se soltar, se regenerar e vestir sua armadura, para correr até a sala do trono, agora corrompida pela presença incompreensível daquela entidade. O cavaleiro se curvou para não ter de fitar a monstruosidade inconcebível que estava a sua frente. “O Ceifador, meu Senhor! Ele o traiu. O maldito negro satanista me atacou, matou minha mulher-dragão, soltou os prisioneiros e mandou uma mensagem. O bruxo me mostrou uma arma de fogo contemporânea e disse: Deus Ex Machina”.
O Inominável fitou seu servo, que se sentiu incomodado, mesmo não olhando para o monstro. Então, a criatura urrou de ódio, fazendo toda a realidade tremer e quase se desfazer perante sua raiva. Teodoro foi jogado para trás e, por um instante, sentiu como se sua alma e seu corpo se separassem rapidamente e depois se reencontrassem, enquanto a própria realidade ao redor também se restabelecia. O Devorador sabia que o revólver de Gehenna era perigoso. A arma o ferira enquanto ele se alimentava. Quando ainda estava frágil. Antes de erguer todas aquelas defesas que faziam dele invulnerável. A arma era uma criação. Apesar de ser um objeto inanimado, era como se fosse um personagem. O maldito revólver SABIA como feri-lo. Sabia como evitar todas aquelas defesas. Mesmo que não o matasse, abriria sua guarda. Se os inimigos estivessem prontos, poderia ser destruído. Ele só tinha uma bala, não podendo ser recarregado graças às estúpidas especificações e regras de Gehenna, mas ainda assim, era perigoso e não queria se arriscar.
“Cacem o Ceifador! Empreguem qualquer meio necessário, mágico ou militar! Não importa como, mas quero aquele revólver destruído ou descarregado o mais rápido possível!” Ordenou, antes de se atirar aos céus, enquanto sua forma crescia e se modificava.
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“Ei, meuss queridosss, olhem o que eu achei aqui”. Disse Lobo chamando os também debilitados companheiros até um cômodo da taverna onde se revelava guardado um belo jipe enlameado.
“Puxa, isso vai mesmo facilitar nossa viagem”. Dahak se manifestou satisfeito.
“He, quem precisa de magia? E viva a tecnologia”. Rimou Malka.
“Ei, com isso, podemos buscar Daniele, Sean, Chucro e os outros”. Sugeriu Gehenna.
“Isso nos fará perder tempo. Não podemos nos dar esse luxo”. Preveniu o rei.
“E como pretende finalizar nossa jornada sem pelo menos uma bela garota em trajes mínimos e um idiota que fale bobagens para servir de alívio cômico? Temos de resgata-los”.
“Uhuuu! Obrigado, queridos heróis! Mas não precisam nos buscar!” Gritou Le Petit, afrescalhadamente saltitando pela entrada da taverna. Logo atrás (ui) estavam Chucro, Sean, Daniele e Aka.
“Mas como...?”
“Terreno de anti-magia. A petrificação não durou muito. Então os rastreamos até aqui”. Aka respondeu à pergunta de Gehenna antes mesmo dela ser feita.
“E agora estamos juntinhos novamente, amiguinhos! Ai, que mara!”
POWPOWPOW
Lê Petit cai ao chão com três buracos na cabeça feitos pela pistola fumegante de Malka, retirada do interior de seu sobretudo. “Sem magia, ele não reviverá. Então, por um tempo, a paz reinará”.
“Não caberemos todos no jipe. Acho melhor nos separarmos”.
“Isso enfraquecerá o grupo, Gehenna. Não é sensato”. Respondeu Dahak.
“Me ofereço para seguir as rainhas até a Arena e levar Le Petit, para que volte a reviver. Seria bom que Sean, Lobo e Daniele viessem comigo”.
Após uma rápida discussão, concordaram com o novo plano de Gehenna. Dahak, Malka, Chucro e Aka continuaram com o plano original.
“Porque resolveu trazer o paladino embaitolado, meu querido?” Perguntou o Lobo.
“Só pra ter uma desculpa para ficarmos com o jipe legal”. Respondeu Gehenna sorrindo enquanto dirigia para longe da taverna.
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“Acha que foi uma boa idéia vir pra cá?” Gritou Elara em seu brinco magicamente transformado em um ponto eletrônico, enquanto coordenava os outros poucos contistas sobreviventes a moldarem muralhas, campos de força e círculos de proteção contra os disparos de plasma, baforadas de fogo e tiros de canhão que os inimigos usavam contra a Arena que servia de base para a pequena resistência de Contonópolis.
“Não! Mas alguém tinha de fazê-lo!” Lady Draconnasti respondeu, enquanto voava pelo céu contra-atacando o incansável exército do Devorador.
“E porque diabos sobrou pra gente?”
“Os outros estavam impotentes!”
“Ah, é! Sem bolas. Só espero que o reforço chegue logo!”
Foi quando a dragoa albina parou no ar, atônita com aquela visão. Ela sussurrou algo, que Elara não conseguiu entender no momento, mas quando se conectou às câmeras da Arena e avistou a forma que emergia do castelo, ela entendera a mensagem. “Cuidado com o que deseja”.
De longe, parecia um dragão com inúmeras cabeças, mas seria muita sorte se fosse apenas isso. A coisa que voava na direção da Arena não era algo concebível nem mesmo pela mais insana das mentes. Era uma massa de tentáculos gigantescos com bocarras cheias de presas com saliva ácida, escamas laminadas e olhos esbugalhados espalhados por toda sua extensão. Dois ou três pares de asas, ou talvez apenas tentáculos modificados, impulsionavam a monstruosidade pelos céus. Parecia ser de todas as cores existentes, nenhuma cor e ainda várias cores inexistentes, tudo ao mesmo tempo. Não era algo possível. Não era algo impossível. Nem ao menos era algo. Era o Inominável.
“Tem razão, Kiara! Foi uma péssima idéia vir pra cá!” Desabafou Elara, se desconectando dos sensores óticos para manter sua sanidade por mais algum tempo. O Devorador estava vindo e nada podia ser feito.
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Era possível ver de longe a terrível batalha que ocorria entre o exército do Devorador e a resistência dentro da fortaleza na qual a Arena havia se tornado. Gehenna dirigia tentando evitar inimigos, que eram abatidos à distância por Sean, quando surgiam, após terem conseguido armas e equipamentos em uma parada rápida para pilhar algumas moradias abandonadas. Lobo Branco havia voltado à sua habitual forma lupina, enquanto Gehenna estava maior, mais forte, peludo e selvagem do que sua forma humana normalmente demonstrava. A chuva continuava caindo forte, com ventos poderosos e raios vermelhos esparsos.
De repente, todos sentiram um calafrio na espinha que os fizeram olhar na direção do castelo. Arrependeram-se amargamente. Uma monstruosidade indescritível voava rapidamente na direção da Arena. A distância parecia se distorcer e reduzir na presença da criatura. Suas inúmeras bocarras urravam e gritavam, seus sons tendo gosto de morte e formato de sangue. No instante em que fecharam os olhos, para evitar o terror incompreensível do Inominável, quase bateram contra um pedaço de matéria escura que caíra bem na frente deles, forçando Gehenna a jogar o carro para o lado e parar.
“O que é isso?” Daniele perguntou, observando um padrão nebuloso na estrutura, às vezes conseguindo ver um ponto brilhante por trás das névoas.
“Acho que é um pedassço do sscéu...” Respondeu Lobo olhando para cima. O céu de Contonópolis estava rachando e se quebrando. Os buracos formados pareciam sugar tudo num vácuo existencial, formando furacões nos céus já tempestuosos. A realidade imaginária que mantinha a cidade estava se despedaçando com a presença da monstruosidade que absorvia para si até mesmo a criatividade residual ambiente.
“Ai, meu deeeus! Eu seempre quis um pedaçinho do céu pra mim!” Gritou Le Petit maravilhado com o que tinha a sua frente. Gehenna e Lobo se entreolharam.
POW
“Ainda ta cedo pra ele. O que estava dizendo, Lobo?”
“O sscéu esstá caindo, chefe. Tem um exérsscito entre nóss e a Arena. E o coisa ruim ta vindo. Não temosss chanssce”.
“Então vamos criar uma”.
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Jedis, Piratas, Andróides, Feiticeiros, Dragões, Fantasmas, Espectros, Elfos, Drows, Vampiros, Soldados, Orcs... Praticamente todos foram pegos desprevenidos, quando a enorme bola de fogo na qual o jipe havia se transformado passou em alta velocidade sobre eles, até se chocar violentamente contra as muralhas da Arena. Ao investigarem a carcaça flamejante do veículo, tiveram uma terrível surpresa, quando um enorme lobisomem negro, com olhos vermelhos e vestindo trapos chamuscados de uma calça, saiu rasgando e dilacerando os inimigos. Infelizmente, eles eram inúmeros. A criatura não teria a menor chance.
Se não fosse o grande lobo alvo de óculos e fitas do Senhor do Bonfim que começou a abrir caminho até o amigo, pegando vários inimigos pelas costas. Mas ele também não tinha chance. Apenas um leve apoio dos snipers escondidos em algum lugar, alvejando os inimigos que chegavam mais próximos de seus companheiros animalescos. Mas eles ainda não teriam a menor chance. Que tipo de plano estúpido conta com a sorte como principal apoio tático?
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“Sabi ki até ki foi boa idéia largá o Le Petit cum elis? Assim, nóis num pricisa se precupá cum matá otras coisa ki num seja us inimigu”. Chucro observou inteligentemente, para o espanto de todos.
“Boa idéia mesmo foi conseguirmos transporte nesta carruagem amarela”. Aka disse, referindo-se ao táxi que conseguiram pegar pouco depois de saírem da taverna.
“Terreno não-mágico, sem transportes voadores ou teleportes a existir. Chamar um táxi foi o mais óbvio que pude presumir”. Malka respondeu, se esforçando para conter as rimas.
“Bem pensado, Malka. Assim, chegaremos bem mais rápido ao Zaratrusca’s Lake”. Disse o Rei Dahak, enquanto pensava se seu plano daria mesmo certo ao atrair os servos do inimigo para seu encalço. Logo saberia. Poemópolis e os possíveis reforços estavam cada vez mais próximos.