por Malkavengrel em 23 Set 2007, 19:51
Memórias Legionárias
“Os campos de batalha estavam apinhados de bárbaros selvagens e de nossas bravas legiões. Muitos de nós estavam confiantes para aquela que não seria nossa primeira campanha. Publius Cornelius Tacitus estava conosco, para registrar nossa vitória para o Império. Em Roma, nosso Cezar aguardava ansioso por notícias. Notícias essas que teriam que esperar.”
“Quando o líder do exercito dos selvagens surgiu, eu pude sentir a presença do Medo se espalhar pelas fileiras da legião. Era como se Marte estivesse nos abandonando, tomando a coragem e a fúria de nossos corpos. Já tínhamos ouvido falar seu nome e até mesmo havíamos zombado de seu posto. No entanto, sua visão foi mais que suficiente para que percebêssemos o quanto havíamos sido tolos por não acreditar nas historias contadas pelos prisioneiros que havíamos feito. Seriamos massacrados apenas por sua presença.”
“Era alta, terrível de olhar e abençoada com uma voz poderosa, assim como seu porte altivo era inconcebível para uma mulher romana. Uma cascata de cabelos vermelhos alcançava seus joelhos; usava um colar dourado composto de ornamentos, uma veste vermelha cobria seu corpo e sobre esta um casaco grosso preso por um broche a protegia do frio que fazia. Carregava uma lança comprida assustando todos os soldados que lhe deitaram os olhos.”
“Aquela era Boudica.”
“Nunca tinha pensado que uma legião romana pudesse perder, mas ali estava a prova viva. Senti meu sangue esquentar conforme a rainha celta ordenava o ataque, senti calafrios quanto vi os bárbaros frenéticos investindo contra nós. Eles eram muitos, eram enormes, pareciam ursos. Seus machados e espadas apesar de rústicos pareciam garras e presas do cão do submundo.”
A pausa nesse momento era estratégica para ouvir os murmúrios.
“Além de Marte ter abandonado nosso batalhão, eu pude escutar o chamado de Plutão que aos poucos parecia abrir fendas no chão para nos tragar para o seu lado. O lugar começou a esquentar e tudo que eu queria eram duas moedas para o barqueiro. Pude sentir o impacto da morte chegando até mim quando o primeiro bárbaro atacou meu escudo.”
Naquela hora eu sempre levantava da cadeira e ficava em pé, não seria diferente desta vez.
“O gládio do soldado ao meu lado entrou na barriga do bárbaro. O sangue quente do selvagem esquentou minhas pernas. Senti o cheiro férreo da morte. Senti que Marte poderia voltar a ajudar, mas já era tarde tinha perdido minha fé nas tropas romanas e fé nos meus deuses. Pude ouvir a guerreira celta grita ‘Andraste’, pude ouvir meus ferozes inimigos se empolgarem com aquele grito. Pude ver que estávamos cercados.”
“Nossas fileiras estavam perdidas, nós estávamos em menor numero, muito menor. Em todos meus anos aqui na Bretanha nunca vi tantos bárbaros reunidos. Plutão realmente tinha conspirado contra minha legião. Mas era o calor da batalha, ele e tomava meu ser. Senti a segunda pressão no meu escudo, senti-o rachando com a força do ataque inimigo. Passei a lamina por baixo, sei que acertei alguém, quanto estrago fiz nunca saberei.”
“Olhei para o lado e gritei para que agüentassem firme, mas já era tarde. Eu sabia que iria morrer. Decidi morrer face a face com o líder inimigo. Soltei meu escudo, peguei meu segundo gládio e...”
Maldito seja aquele que baterá a porta do refeitório enquanto eu encenava a parte preferida da minha historia. O barulho estrondoso da porta fechando novamente fizera que todos olhassem para traz.
“Peguei meu segundo gládio e me abaixei, desviando por pouco da machada desferida pelo bárbaro. Aproveitei para lhe desferir dois cortes no abdômen, exatamente como os bons gladiadores fazem. Ele caiu facilmente com meu ataque. Rolei para frente e cortei a coxa de alguém. Levantei e dei um passo para o lado escapando por um triz da lamina inimiga, pude então localizar a ameaça iminente a minha legião.”
Parei de encenar um pouco para recuperar o fôlego, e aproveitei para sentar. Todo ano era a mesma coisa ver os olhares empolgados dos legionários mais novos, e os risos dos mais velhos.
“Lá estava ela, com seus cabelos vermelhos, com seu corpo belo, muito mais belo que qualquer romana, era ela Vênus encarnada. Sua presença apesar de aterradora era apaixonante, mas ela era a inimiga eu tinha que vencê-la. Meu abaixei para desviar da machada de uma besta furiosa que me atacava, joguei-o por cima de meus ombros, cortei a virilha de um bárbaro próximo e rolei ao lado de outro.”
“Senti o cheiro de rosas se aproximando. Eu sabia que ia morrer, mas antes eu iria matar aquela afronte ao Cezar, aquela falsa rainha. Boudica iria morrer, nem que eu morresse junto. Novamente me abaixei, mas desta vez para escapar da lança sanguinária da guerreira. Aproveitei para cortar a virilha de mais um bárbaro.”
Adorava essa parte da encenação, dei um gole no vinho que estava sobre a mesa, e me levantei.
“Fui derrubado por um guerreiro celta. Senti meu ombro bater em algo duro, mas o calor da batalha me fez esquecer da dor. Nada na parecia importar, lá estava ela, na minha frente. Eu e ela, mais ninguém. Ela soltou a lança com calma e tirou da bainha a espada longa. A espada era longa e fina, muito diferente das nossas laminas. Ela girou rapidamente a lamina ao lado do seu corpo. Ninguém mais parecia querer atrapalhar nosso pequeno combate.”
Queria me manter serio, mas um sorriso meu fugiu o rosto, enquanto eu dei uma pequena pausa para olhar a platéia que havia formado ali.
“Senti Marte voltando o rosto a minha pessoa. Senti Plutão se afastando. Seria rápido, ela não aparentava boa guerreira. Mas sabe como é: as aparências enganam. Investi em com toda força que tinha em um golpe, ela facilmente desviou meu gládio com sua espada. Senti fúria e tentei golpe-la novamente. Desta vez ela penas deu um passo para o lado. Vi a lamina vindo em minha direção, o movimento ascendente da arma bateu em peito. Joguei-me para traz, assim evitando que eu fosse decapitado, mas ainda sim a lamina me cortou.”
Adoro mostrar a cicatriz no meu queixo, mesmo que ela não fosse causada pela guerreira ninguém podia discordar.
“Cai no chão praguejando a mulher. Tentei me levantar, mas a sua lamina já esta no meu pescoço, era tarde, eu era agora um prisioneiro. Eu vi a legião que eu comandava cair, não foram feitos mais que dois prisioneiros. Ou seja, apenas eu e o historiador Tacitus sobrevivemos ao combate.”
Os olhos confusos dos legionários mais novos me alegravam.
“No outro dia tanto eu como Tacitus estávamos sendo bem cuidados em um vilarejo. Um homem velho e de manto sujo, veio cuidar de nossos ferimentos. Alimentou-nos, mas nada falou, também não queríamos falar. Tínhamos fracassado e ainda por cima nos deixaram vivos para rir de nossa desgraça. Por uma semana ficamos ali recebendo pão, água e cuidados médicos. Até que um dia...”
Sentei-me, tomei mais um gole de vinho. Senti o silencio de mistério, então pude continuar.
“Um dia veio até nós Boudica. Ela conversou conosco um pouco e nos explicou que não nos matará, pois ela mata apenas os guerreiros medianos e deixa aqueles que têm coragem de desafiá-la sobreviverem, assim batalhar contra eles novamente. Levou-nos até uma mesa onde um banquete estava sendo servido. Sentamos ao seu lado e comemos, no final da refeição fomos liberados.”
“Voltamos a Roma e entregamos a mensagem de que a legião havia sido derrotada. Cezar não ficou feliz, me mandou de volta a Bretanha com uma legião quatro vezes maior. Tacitus fora ordenado a alterar seus registros sobre nossa batalha, para que na realidade fosse uma vitória honorária. Voltamos, ainda éramos em menor numero, mas muito melhor preparados que os selvagens da região. Viemos, Vimos e Vencemos. Nenhum bárbaro ou Rainha Celta poderia fazer Roma desistir alguma conquista.”
Murmúrios de reprovação ecoavam pelo refeitório da guarnição dos legionários.
“Escutem esse velho legionário, o Cezar mudou a historia, para que Roma se sentisse orgulhosa.” Falei confiante mudando o tom para um grito. “Eu lhes conto a verdadeira historia para que vocês na sejam moles como os antigos legionários que estavam aqui. Pois eu não gosto de fracos nem de covardes.”
Levantei, rapidamente jogando a cadeira no chão.
“Essa é a Vigésima Legião Valente e Vitoriosa e é nosso dever manter a ordem na Bretanha. CUSTE O QUE CUSTAR!”
Adorava ver os novos legionários levantarem e gritar.
“Pelo Imperador Vespasiano, e Pela Província da Bretanha. Pois nós já derrotamos a tribo dos Brigantes!”
Ótima maneira de incentivar jovens, eles apenas precisam de um pouco de empolgação. Amanhã iremos matar alguns celtas, como eu adoro matar celtas.