Escrevi esse conto como um exercício de descrição. No final ele saiu um pouco mais longo do que eu imaginava, porém, bem menor do que oq costumo escrever.
Boa leitura, Abraços!
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O Último Duelo
Por Breno Pascal "Lobo_Branco" L. Brito
Ele sorriu, mais por nervosismo do que por achar aquela situação agradável. Seus passos firmes mal revelavam o nervosismo crescente, transparente em suas mãos inquietas. O gorjear das aves próximas ou o barulho irritante dos insetos eram mudos a ele.
Caminhou até próximo de outros dois homens, envoltos em grossas capas de couro com capuz, a fim de protegerem-se da fina chuva que caia. Seus olhos úmidos caíram sobre o horizonte, vendo o inicio do arco solar despontar atrás das serras e picos.
Olhou para seus pés, para a grama alta que o cercava. Começou a enrolar freneticamente o fino bigode entre os dedos, enquanto seus olhos procuravam por alguma distração nas proximidades. Viu uma mosca presa em uma teia fabulosa, em um graveto próximo. Suou frio, ao ver a aranha injetando seu veneno no animal prisioneiro, podia jurar sentir a dor do inseto, como podia ouvir o sorriso sádico do aracnídeo.
Balançou a cabeça, começando a caminhar em círculos. Os homens encapuzados voltaram sua atenção a ele, sorriram entre si.
- Estás nervoso? – disse o primeiro, que revelava um belo cavanhaque já grisalho.
O jovem o encarou, com seu sorriso preocupado no rosto. Tentou balbuciar algo, porém não teve sucesso em seu empenho.
Os homens riram mais uma vez.
- É normal mostrar-se nervoso, jovem. Talvez ele nem mesmo dê o ar de sua graça. – disse mais uma vez o homem de barba grisalha.
- Não deverias contar com isso. – disse o outro, revelando a chegada de uma carruagem.
O jovem enrijeceu, encarando o carro se aproximar. O lento girar da roda de madeira, o trotar calmo dos cavalos, a aparência serena do piloto.
Perguntou-se o porque estava ali, porque tinha feito tal asnice que lhe entregaria as portas da morte. Sim, pensava que sua morte era uma certeza, assim como a ascensão do disco solar – como não podia ser algo certo, se o servo do teu algoz não revelava a menor preocupação, se as bestas dele não revelavam o menor temor do que estava por vim, se havia uma harmonia fúnebre até mesmo no ranger das rodas de seu carro.
Teve ânsias de gritar, porém, manteve a boca fechada, assim forçando o vômito à não deixar sua garganta.
Forçou suas pernas a levarem-no até atrás de seus companheiros, que sorriam com a situação dele.
Atrás deles, o jovem retirava a casaca, enquanto tentava harmonizar sua respiração.
- Estás pálido. Cuidado para não desfalecer como uma donzela. – disse o segundo homem, encarando-o jocosamente.
O jovem dobrou sua casaca a repousando cuidadosamente no chão. Passou as mãos pelo rosto, mais molhado pelo suor do que pela água da chuva que caia docemente sobre seus ombros.
Viu a carruagem parar. Respirou fundo, engolindo em seco, enquanto a portinhola da mesma abria.
Desceu primeiro um homem maduro, de cabelos cortados rente à cabeça, olhos azuis vivos, cavanhaque bem desenhado e pontudo. Sua pele branca sobre o corpo bem definido. Tinha apenas uma camisa de linho e calças justas.
Esse homem deu a mão em auxilio ao desembarque de uma jovem de beleza nunca antes vista pelos olhos nervosos do jovem agachado a grama.
Belos cabelos ruivos caiam-lhe sobre o vistoso busto, dona de pele perfeita e grandes olhos verdes. Lábios finos e bem desenhados assim como o belo nariz. Seu gracioso vestido de um azul claro parecia lhe dar um ar de pureza extrema.
O jovem por um momento escondeu a face entre as mãos, amaldiçoando estar ali.
Após a bela jovem, apeou da carruagem um homem de aparência glutónica, enfiado em trajes surrados da ordem dos franciscanos. Na verdade, a imagem do último a descer era bastante semelhante às dos quadros do Santo de Assis, com a diferença de que o franciscano presente não tinha mais que um metro e sessenta e tinha quase cem quilos.
O primeiro homem a descer, deu alguns passos em direção aos três homens, fazendo uma bela vénia, arqueando o tronco, com uma mão apoiada sobre as costas da cintura e a outra na direção dos homens.
Os dois homens encapuzados retribuíram o gesto, com vénias menos pomposas, limitadas a um breve arquear de cabeças.
O jovem ergueu-se atrás dos companheiros, caminhando a duros passos em direção dos recém chegados. Manteve-se afastado cerca de 10 passos do homem e distando uns cinco dos seus companheiros.
- Peço-lhe perdão pelo atraso, pois tive que ir atrás dos meus padrinhos. – disse o homem apontando a bela rapariga e o frei que lhe acompanhavam. – Porém, espero que os momentos tardios após o amanhecer que vos obriguei a esperar não lhe tire o apreço entre nossas pessoas. – disse ironicamente.
O jovem nada disse, encarando-o. Tinha receio impregnado nos olhos, porém, ver aquele ser de atitudes jocosas, o remetia a noite passada e a humilhação que ele tinha feito a bela srta. D’La Ville.
Cerrou os punhos, obrigando seus joelhos pararem de tremer. Quisera poder fazer o mesmo com o seu coração, que crescia o ritmo de suas batidas, parecendo querer explodir.
- Imagino que esses belos cavaleiros que lhe fazem companhia sejam teus padrinhos. Bem, sem mais delongas senhores, sou Armand de Seguille, desafiado por questão de honra pelo senhor Charles Toussaint. Trago como meus padrinhos a bela Béatrice, duquesa de Seine Sant-Denis. E o frei Bernart, pois nunca se sabe quando será necessário um homem apto a fazer a extrema-unção - disse sorrindo o belo Armand.
Os homens retiraram os capuzes, revelando suas faces. Ambos tinham portes nobres e belas feições, com a idade relativamente avançada.
- Sou Guillaume, conde de Beuvais e este senhor é Jean, um dos dragões da guarda do rei. – disse o homem de cavanhaque grisalho. – Como tu, Armand, fora o desafiado, escolha as armas. Sabendo que é um duelo até a morte. – suspirou Guillaume, olhando o jovem, que aparentava estar menos pálido, porém ainda com as mãos inquietas.
Armand estalou os dedos, enquanto se espreguiçava. Girou sobre os calcanhares, indo até a direção da carruagem.
- Prefiro cruzar espadas. Porém se o jovem Charles preferir as pistolas, que seja o que ele achar mais cômodo. – disse ainda de costas, fazendo um sinal para o servo que se mantinha sentado a carruagem, observando tudo.
O jovem abriu a boca, se forçando a dizer algo, mas a voz ainda lhe faltava. Sua atitude ridícula, tirou um breve riso da duquesa, algo que o fez voltar a sentir os joelhos tremerem e o rosto esquentar.
- Então serão as espadas. – disse jovialmente o conde de Beuvais.
O servo de Armand lhe entregou a arma envolta em um grosso veludo roxo, com um belo brasão bordado em ouro. Armand a desembrulhou cuidadosamente, revelando uma pela lâmina prateada. A empunhadura era cravejada de algumas pedras, enquanto a proteção para a mão tinha o belo formato de vinhas se trançando.
Armand a movimentou velozmente pelo ar, fazendo o leve silvo característico do movimento brusco.
O jovem Charles respirou fundo, puxando sua espada da bainha surrada. Prostrou-se em posição, com a lâmina alta.
Armand teve então a benção do frei, se pondo lentamente a caminho do jovem. Ergueu sua lâmina, a cruzando levemente com a de Charles.
Armand fez um arco descendente a partir do ponto onde estava sua espada. Tinha como objetivo atingir o joelho do rival com a ponta da mesma. O jovem no susto pulou, recuando. Armand avançou um passo, desferindo uma rápida estocada contra o ventre do rapaz.
Charles recuou, girando em 90º o corpo, vendo a lâmina do inimigo atravessar apenas o frágil pano da sua camisa. Deu dois passos atrapalhados para trás, terminando por cortar uma parte de sua vestimenta. Viu Armand atacá-lo com um corte lateral, colocou seu sabre na frente - a segurando com a mão invertida, virando a ponta para chão - fazendo soar o barulho de metal chocando contra metal.
Armand desceu sua lâmina pelo fio da espada do jovem, forçando-a em direção do corpo do inimigo. Charles recuou, evitando que mais uma vez a ponta da arma do rival cortasse suas pernas.
O homem desferiu mais uma estocada contra o torso do jovem, girando sua espada na tentativa de confundir o rapaz, que mais uma vez pulava para trás, a fim de evitar o ataque.
Armand sorria com aquilo, balançando negativamente a palavra. Charles suava frio, sentia a garganta fechar e as pernas tremerem. O inimigo queria vê-lo sangrar, vazá-lo como a um porco.
Armand deu um passo para frente, fintando uma estocada para ter espaço, dando outro passo e atacando em um rápido corte ascendente visando o ombro do rapaz.
Charles girou o corpo, sentindo o frio metal passar levemente por seu peito. Recuou passos desajeitados que acabaram por resultar em uma queda nada elegante.
- Levanta-te rapaz. – disse Armand, recuando, dando espaço ao rival.
O jovem tocou o peito, sentindo a mão humedecer com as gotas de sangue que o pequeno corte resultara. Ficou olhando a mão avermelhada pelo sangue, seus olhos arregalados, sentido dificuldades de respirar.
Armand esperava ele erguer-se, o olhando com misto de pena e ironia. Suspirou em meio a um sorriso, se pondo de cócoras esperando o inimigo ficar de pé.
Guillaume caminhou até Charles, o olhando pesarosamente.
- De pé. – disse autoritário – Ficar chorando no chão não mudará nada. De pé!
Charles o encarou, procurando apoio, mas sabia em seu intimo que não encontraria nenhuma ajuda em seus padrinhos. Respirou fundo, obrigando-se a levantar. Olhou uma última vez a mão suja com seu parco sangue.
Caminhou em direção a Armand, que se levantava, erguendo a espada mais uma vez.
Armand tocou sua lâmina na do jovem, vendo-o recuar em um pulo rápido.
- Em guarda. – disse irônico o belo homem.
Charles atacou em meio a um grito. Tentara fazer dois cortes ascendentes – uns tanto abertos - um da esquerda para a direita e o outro com direção oposta.
Armand girou o corpo para a esquerda evitando o primeiro ataque. O segundo ele parou com a sua própria espada, fazendo os metais se chocarem. Recuou um passo, girando sua lâmina bruscamente, desarmando Charles com o movimento.
A espada do jovem caiu um metro ao lado. Ele sentiu sua perna fraquejar e o gosto frio do ferro. Mas o ferro não veio até ele.
- Tua arma Charles, não ataco homem desarmado. – disse Armand rindo.
O jovem caminhou até tua espada, com o rosto escondido entre as mãos. Sentia os olhos arderem, tamanha a pressão do momento e a humilhação que passava.
Pegou a arma, virando para o rival. Armand já estava em posição, esperando o toque das armas.
Mais uma vez elas se tocaram e mais uma vez eles se afastaram.
Armand avançou um passo, desferindo um golpe alto, um belo corte horizontal, porém sem velocidade. Charles defendeu sem dificuldades, ainda recuando uma das pernas.
O homem aproveitou a parada brusca da arma, para tentar uma estocada direcionada ao pescoço de Charles, que também defendeu, batendo com violência contra a espada de Armand, o fazendo abrir um pouco a guarda. Tentou atacar, mas encontrou o fio rápido como escudo ao seu ataque direto.
Começaram a trocar golpes com maior freqüências, ora golpes altos, ora golpes baixos. Armand dirigia a direção do rival como o cavalheiro em uma dança, seus ataques não tinham mais tanta velocidade, apesar de serem mais precisos. Uma única falha e Charles cairia por terra.
Pararam se encarando, Charles arfava, aparentando dificuldades para respirar, enquanto Armand sorria.
Giravam as pontas de seus sabres entre si, como num jogo de pegador. Armand avançou um passo, dobrando a perna dianteira, desferindo uma violenta estocada contra o jovem.
Charles bateu sua lâmina contra a do rival, desviando seu caminho, porém, mesmo assim o metal de Armand encontrou o ombro de Charles.
O frio metal chocou-se contra a pele macia, atravessando-a, rompendo nervos e parte da ossatura da região.
Charles caiu de joelhos, enquanto Armand puxava a lâmina, a forçando para baixo. Ao retirá-la completamente do corpo do jovem, já tinha feito um corte até o peito do mesmo, que tombava em lagrimas.
Armand olhou os padrinhos de Charles, os cumprimentando. Apesar do sorriso vitorioso nos lábios, seu olhar carregava pesar.
- Sinto pela perda, meus caríssimos senhores. – disse com certa indiferença – Talvez o corte não tenha sido de todo profundo e ele possa ser salvo.
Os homens se aproximaram em direção do jovem, que chorava emudecido pela dor.
- Entendemos sr. Armand. – disse o dragão em pesar.
- És de extrema bondade de tua parte lhe dar uma chance de sobrevivência, porém, creio que não serás possível, vendo a quanto ele sangra. – disse o conde de Beuvais.
Guillaume ajoelhou ao lado do jovem, segurando sua mão paternalmente.
-Lutaste bem, mas nem sempre se pode vencer, pena ter sido derrotado logo no primeiro duelo. – disse pesarosamente – Não te preocupes, manterei minha palavra.
Charles chorava, em meio a tremores. Pareceu ter um lapso de tranqüilidade em meio as palavras do nobre que o segurava próximo a si. Viu Armand chamando o frei, que se aproximava dele com pesar nos olhos. Estava cansado, nunca imaginara que morrer cansava tanto. Lutou para ouvir tudo que o frei dizia, mas até mesmo ouvir parecia cansá-lo mais e mais.
Resolveu então fechar os olhos e deixar ser embalado pelas palavras do frei.
Por um momento fora cometido pela tristeza de nunca mais poder ver o céu, mesmo nunca parando para apreciar o mesmo.
Logo não sentia nada mais, e não havia um mais para ser sentido
