Lumine Miyavi escreveu:O que significa esse termo "videogame de papel", e quais são as características racionais que levam uma pessoa a usa-lo? Digo, quais são os motivos que categorizam um jogo como "videogame de papel"?
Não sei o que o termo significa para os outros, mas pra mim (que já o empregava na época do AD&D) o termo tem a ver com a
lógica interna de modelagem do sistema.
Vou usar duas linhas icônicas, pra exemplificar..
D&D, desde 1974, sempre modelou seus constructos (personagens, monstros, ítens, aventuras, etc) em função de um
jogo de combate. Essa premissa vinha em primeiro lugar, e todo o resto vem depois. O sistema evoluiu ao longo do tempo, se transformou, adotou idéias externas (expandiu o "vilarejo que servia pra cura e compra de armas" para cenários completos; acrescentou camadas extra-combate ao sistema; etc) mas sua essência continua a mesma.
Já Runequest, desde 1978, modelava seus constructos em função da
realidade (sem deixar de ser um jogo, obviamente). Personagens, aventuras, ítens, etc. possuiam uma lógica interna que se comunicava com a realidade de forma inédita até então (e, discutivelmente, o faz até hoje). O sistema evoluiu, se transformou, adotou idéias externas (simplificou-se em prol de fluidez de jogo, etc), mas sua essência continua a mesma.
Dito isto, meu primeiro contato com rpg "tradicional" se deu com o segundo grupo: Gurps, Shadowrun e Runequest/BRP (na verdade foi Daemon, que achei fascinante até alguem me mostrar que não passava de uma cópia piorada de BRP, e então busquei os originais e fiquei mais fascinado ainda). Nem preciso dizer que esse contato "moldou" minha visão do hobby pro resto da vida.
Sendo assim, quando tive contato com AD&D a primeira vez, foi uma decepção total - o sistema modelava seus personagens em função de um "joguinho de combate", me obrigando a aprender (e escolher entre) elementos que não se comunicavam minimamente com a realidade, como "Classes", "Niveis", "Poderes", "XP por monstros", "livro de monstros", "spells por dia", "feats/talentos/superpoderes", "limitações de armas/armaduras em função de classe", "restrições de raça", "Armor Class", Thac0/ BaB,etc. A sensação que eu tive era que estava criando uma pecinha de um jogo de tabuleiro ou um boneco de vídeogame. Aquele "joguismo" exacerbado que permeava a tudo feria (e ainda fere ) minha capacidade de imersão, minha capacidade de acreditar que sou uma pessoa habitando um outro mundo.
O rótulo "videogame no papél" é pelo fato de estarmos na era do videogame, que é a instância mais popular dessa filosofia "joguista" (vide Diablos, WoWs, Wizardry, etc - jogos onde você pode até mesmo ignorar as estórias/plots, sem o menor prejuízo ao gameplay). Mas o rótulo poderia ser "Miniaturas no papél", "Wargame no papél", "Gamão no papél" ou qualquer instância que possua um núcleo joguista muito forte.
"For those who came in late, Glorantha is a myth-heavy Bronze Age with a strong Howardian feel, but much more than that. It's probably the best fantasy world ever created for a game" -Kenneth Hite
"Apenas cale a boca e jogue, mocorongo" - Oda