Voltando mais uma vez a ativa...
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16/12/1979, Belfast – Ulster- Cara, eu não sei por que você é tão revoltado. - disse o negro de olhos mel, porém avermelhados, a voz rouca por causa do fumo, passando o cachimbo ao ruivo. - Você tem tudo, Sean, tudo.
Sean sorriu, pegando o cachimbo, o levando até a boca, dando uma longa tragada.
Ambos estavam sentados sobre um banco numa praça próxima a casa que Sean morava. A noite fria e a alta madrugada tinham levado todas as pessoas de bem para casa, a parca se encontrava numa penumbra densa, já que as lâmpadas dos postes tinham sido quebradas noites antes. Iluminados por uma pálida lua, os dois jovens fumavam, tentando desestressar da semana de provas que antecedia o feriado de natal.
- É serio, eu até poderia entender seu lado “garoto-problema”, porque, sinceramente, todas as riquinhas que você comeu no colégio foram por causa dele. - continuou o jovem negro - Mas, cara, não vejo porque você é um maldito racista.
Sean o olhou sem entender, com um sorriso besta no rosto, que ia alargando mais e mais, passando o cachimbo ao amigo.
- Eu não me vejo como racista Charles. - disse o risonho Sean, de olhos vermelhos e voz rouca, com seu sotaque gaélico mais forte que o de costume.
- Bem, acho que os malditos encapuzados americanos também não se viam assim não é? - ironizou o negro, preparando-se mais uma vez para dar sua longa tragada. - ‘Tá quase acabando, tem mais?
Sean tateou os bolsos, encontrando mais um saquinho com um pouco a mais de erva.
- Bem, essa é a ultima até o ano que vem. - sorriu tristemente.
- Caralho, até o ano que vem? - espantou o amigo.
Sean concordou com a cabeça, guardando o saco no bolso novamente. Passou a mão pela cabeça, soltando os cabelos, que lhe caíram pelo rosto, tocando levemente seu ombro.
- Sim, não irei me encontrar mais com os “patrões”. Meu avô chega daqui quatro dias, apesar dele ser um “hippie”, não acho que ele gostaria de me ver fumando erva.
- Nem tento arranjar, na minha área só tem coisa de terceira, e se meu velho descobre ele me chuta daqui até a África na base da ponta-pés! - brincou o jovem, passando o cachimbo para Sean mais uma vez.
O ruivo deu uma ultima tragada, deslizando pelo banco, olhando a lua.
- Bela noite não? Bem que agente podia ir à casa de sua namoradinha. _ riu alto, colocando a mão na boca logo em seguida.
Charles ficou atento, olhando para os lados, sorrindo.
- Você ta doido, o pai dela teria um troço. Pensaria no mínimo que sou um demônio de outro mundo que veio buscar sua filha. Caralho Seanny, o filho-da-puta nunca tinha visto um negro na vida!
Sean riu, levantando-se, se espreguiçando.
- Não o condene Charles, eu também nunca tinha visto um.
Charles sorriu, levantando também, caminhando até uma árvore próxima.
- Mas você é um maldito caipira estrangeiro! - disse, enquanto mijava nas raízes da árvore.
- Disse o alvo irlandês - riu o ruivo, jogando as cinzas do cachimbo fora. - Vamos, daqui a pouco o guarda está passando por aqui.
Ambos saíram, a passos curtos, fechados dentro de seus casacos, com as mãos no bolso, vagando sem rumo pela praça escura.
- Você decorou mesmo o tempo de ronda do guarda, einh?
- Não é muito difícil, agora posso andar pelo bairro todo sem me bater com nenhum soldadinho idiota com perguntas idiotas. Assim faço minhas coisas, sem ser ou incomodar o tio Angus, e melhor, sem meu avô ficar sabendo.
Charles olhou Sean, ambos andando no escuro, com o caminho já decorado.
- Seu avô sabe de todas as suas “obrigações”? - indagou, ainda com um sorriso no rosto.
- Claro que sabe, aquele velho sabe de tudo. - riu Sean - Porém ele nunca me disse nada diretamente.
- Você não acha que isso o mágoa, Sean?
Sean deu de ombros, olhando para as estrelas.
- Bem, eu sigo o mesmo caminho que dois dos seus três filhos, não deve ser nenhuma surpresa para ele.
Eles pararam em uma fonte, onde Charles aproveitou para beber da água gelada, observando o amigo ainda olhando a lua.
- Bem, dessa forma imagino que você saiba o que seu pai acharia disso tudo, mas e sua mãe Seanny?
Sean parou como se tivesse visto um fantasma, ficou pálido repentinamente. Seus olhos, agora sem vida, encararam o amigo, fazendo este perceber que tinha falado de mais.
O ruivo sentou-se na fonte, prendendo o cabelo mais uma vez.
- Eu não sei. - sussurrou quase inaudivelmente. - Um dia, quem sabe, ela me diga.
Charles ficou observando o amigo, e a dor que ele sentia sempre que falava dos pais. Sentia-se péssimo por fazer uma das poucas pessoas na cidade que o tratava bem, apesar de Sean não tratar quase ninguém bem, se sentir mal.
- Hei Seanny, e a tatuagem, como anda?
Sean olhou o amigo, vendo que esse também se sentia mal por ter dito mais do que a boca.
- Cara, ta ficando boa. – disse agora desanimado. - Espero que vovô não diga nada, por que eu já ouvi o suficiente de tio Angus. - sorriu forçosamente.
- Deixa-me ver ai. - pediu o negro.
Sean suspirou, tirando a jaqueta e a camisa que tinha por baixou, mostrando as costas, agora bem mais fortes que antes ao amigo.
Traçado em suas costas tinha uma espécie de “La Pieta”, uma Maria segurando Jesus, porém a manta da virgem lembrava as cores da bandeira irlandesa, e a própria bandeira estava sobre Jesus. Atrás deles com se servindo de apoio, tinha uma bela cruz-celta. A tatuagem tinha poucas cores e estava pálida, porém, já demonstrava grande beleza, tomando de ombro a ombro do jovem.
- 'Tá muito massa Seanny. Porém acho que no futuro não vai ter a mesma beleza que tem agora, vai ficar esticada e estranha.
Sean deu de ombros recolocando a camisa.
- Quando isso acontecer eu penso em algo. - sorriu, pegando o cachimbo e a erva mais uma vez - Bem, vamos nos animar mais né?
Charles sorriu. Ia ajudar Sean, quando viu algo estranho no bolso da jaqueta de Sean.
Enfiou a mão no bolso do amigo, com a cara seria puxando de dentro do mesmo o revolver que Sean carregava consigo, o “Smith & Wesson®” que ganhara há anos do tio.
- Que desgraça é essa Sean? - gritou irado Charles.
Sean tomou a arma da mão do amigo a enfiando no bolso de novo.
- Não saio sem ela, ainda mais de noite. - disse serio, encarando Charles.
- Velho, são atitudes assim que resultam em merda! - protestou o negro.
- A falta dela que seria uma desgraça, e se o descascador ou marrons aparecessem por aqui, einh Charles? - indagou o jovem ruivo.
Charles abriu a boca, mas nada falou. Cerrou os punhos e voltou a se sentar na fonte, encarando o amigo.
- Termina logo essa merda Vermelhão. - exigiu Charles, que voltou a observar o amigo preparando o cachimbo.
- Seanny, você já matou alguém? - perguntou meio tímido, enquanto esperava Sean dar o primeiro trago.
Sean tragou longamente, passando o cachimbo ao amigo. Apoiou as mãos na fonte, inclinando o corpo para trás, à vontade de sorrir aumentava em seu rosto, e sua cabeça ficava mais leve, assim como o chão em seus pés menos substancial.
Suspirou, olhando o amigo, que estava terminando de tragar, já pronto para devolver o cachimbo.
Sean levou mais uma vez o cachimbo a boca, porém não tragou, fechou os olhos e por um breve momento sentiu o mundo parar de girar. Respirou fundo.
- Sim, duas pessoas. - sua voz saiu pesada e pausada. Levou o cachimbo a boca, dando uma longa tragada.