O principal jornal do Paraguai, o "ABC Color", é também o mais agressivo crítico do tratado de Itaipu e da relação entre o país e o Brasil. Fundado há 41 anos, o diário em formato de tablóide que circula em todo o Paraguai é o maior porta-voz (ou fomentador, depende do ponto de vista) de um sentimento relativamente corrente no país de que o Brasil é acima de tudo uma nação imperialista e exploradora do povo paraguaio.
O diretor do jornal, Aldo Zucolillo, 78 anos (mas ele aparenta ter uns dez anos a menos), filho de argentinos e neto de italianos, é considerado um dos mais importantes formadores de opinião no Paraguai.
Nos editoriais, ele e sua equipe não deixam dúvidas sobre a visão que nutrem do Brasil. No domingo, dia das eleições nacionais, o "ABC Color" cravou como sua machete: "O Brasil explora o Paraguai em Itaipu". Na última semana de fevereiro, num editorial que cobria toda a primeira página, o "ABC" classificava o Paraguai não como "sócio do Brasil" em Itaipu, mas como seu "escravo". Dias atrás, num outro editorial, lamentou que o destino do Paraguai estaria traçado por sua proximidade geográfica com o Brasil. Nas eleições, Zucolillo e o jornal apoiaram Lugo.
Em entrevista ao Valor, no sábado, Zucolillo falou da relação com o Brasil, de política interna, de Lugo e do tema que faz sucesso em suas páginas: Itaipu. A seguir, leia os principais trechos dessa entrevista. (MMS)
Valor: Que tipo de imagem os paraguaios têm do Brasil e das relações com o Paraguai?
Aldo Zucolillo: Que o Brasil é um país imperialista, explorador, que aproveitou a oportunidade quando as duas ditaduras militares e assinaram um acordo [sobe Itaipu] em prejuízo direta do povo paraguaio. Por dinheiro.
O governo brasileiro subornou [o ex-ditador paraguaio Alfredo] Stroessner e seu governo para assinar esse tratado. Ninguém, nenhum governante são, assinaria algo como isso. Foi somente pelo dinheiro.
Valor: O que o senhor considera preço justo para a energia paga pelo Brasil ao Paraguai?
Zucolillo: O preço de mercado.
Valor: Por que motivo o "ABC Color" optou por essa linha editorial crítica não só sobre Itaipu, mas também sobre o Brasil?
Zucolillo: Porque nós somos bobos, mas não tanto. Só porque se firmou um tratado - entre dois ditadores -, nós não temos o direito de reclamar dele?
Valor: O Brasil prejudica o desenvolvimento do Paraguai?
Zucolillo: Totalmente, totalmente. Porque é uma potência imperialista. O Brasil não vai permitir nunca que o Paraguai se desenvolva. Todos os dias há provas disso.
[Ele pega a edição de sábado do "ABC Color" e lê o título de uma matéria sobre uma fila de caminhões paraguaios com dificuldades para passar pela Receita Federal brasileira: "Mil caminhões parados no Brasil"]
Valor: Esse imperialismo se expressa de que forma?
Zucolillo: Mil formas. Os caminhões parados, são um exemplo.
Depois, há o suborno das autoridades paraguaias. Você sabe que aqui, no paraíso da energia hidrelétrica, temos apagões porque não há transmissão segura.
O Brasil suborna as pessoas da Ande [a companhia de energia paraguaia] para que eles não façam melhorias na rede.
Valor: Essa tem sido a política dos governos brasileiros?
Zucolillo: Essa é a política do Itamaraty. Sabe qual é o pensamento do Itamaraty sobre até onde chega o Brasil?
Até onde um brasileiro puder chegar.
São as fronteiras flexíveis.
Qual é fronteira do Brasil?
Até onde um brasileiro puder chegar.
O Brasil é extremamente astuto e não tenho dúvida que será uma potência mundial, porque tem uma liderança fantástica, uma cabeça fantástica.
O Brasil já comprou o cimento da Argentina, já comprou a YPF. O Brasil vai comprar tudo. O Brasil tem essa filosofia, não vai permitir que o Paraguai se desenvolva.
Valor: O governo brasileiro diz que ajuda e se interessa em ajudar o desenvolvimento do Paraguai...
Zucolillo: O que mais diria?
Valor: Qual seria o interesse do Brasil de não desenvolver o país?
Zucolillo: Primeiro, para que o Paraguai não consuma a energia de Itaipu. Depois, para impedir que o Paraguai adquiria força econômica.
Porque se nós desenvolvermos o setor agrário, precisaremos de indústrias e precisaremos de energia. Então, não deixam que o setor agrícola se desenvolva.
Valor: Foi Itaipu que fomentou esse sentimento de que Brasil tem um comportamento imperialista?
Zucolillo: Claro que sim. Antes, as relações eram perfeitamente normais. Itaipu é uma máquina de subornar, dando dinheiro em efetivo para os governos. Para uns mais e para outros menos.
E isso dependendo de como está a opinião pública. Se está muito brava, dá mais dinheiro. Se está calma, menos dinheiro.
Sempre Itaipu. Itaipu é a grande corruptora do Paraguai.
Valor: Itaipu não ajudou o desenvolvimento do Paraguai?
Zucolillo: Claro, inevitável, não há dúvida.
Só que surgiu um grupo de empresários e políticos denominado barões de Itaipu. Eles ficaram bilionários, elevando os custos das empresas.
Esse era o preço do suborno que o Brasil pagava para o governo paraguaio. Os empresários eram todos testas-de-ferro de políticos. Ganhavam 1.000 no contrato e tinham de dar 500 para eles.
Valor: O fato de que grande parte da produção de soja está nas mãos de brasileiros é algo que incomoda os paraguaios?
Zucolillo: Não. Incomoda os sem-terra, as ONGs, a mesma merda [sic] que vocês tem no Brasil. Essa mesma escória. Falam sobre os agrotóxicos e não sei o que mais. É a mesma história.
Valor: O jornal apoiou a aliança entre liberais e Lugo?
Zucolillo: Não, mas eu sim. Que se unam para limpar isso. Essa gente converteu o país num esgoto.
Valor: E é possível pensar num governo juntando os liberais e a esquerda paraguaia?
Zucolillo: Tivemos até agora uma sociedade monolítica. Eles são os donos e nós, os escravos.
Então, que venha Lugo, que briguem, que confrontem as idéias entre os da esquerda, da direita, dos de cima, dos de baixo. E, se o povo quiser se marxista, que seja. É isso.
Fonte - Valor Econômico