Página 1 de 2

Max

MensagemEnviado: 24 Set 2007, 23:08
por Sampaio
Bem, é com algum receio que apresento-lhes este conto. Com receio pq não vejo muito por aqui (para não dizer nunca) abordarem algo do tema ou teor do absurdo, logorréico, infame, humorístico, de significação mais obscura, etc. Mas acho que será bom, no mínimo para destoar um pouco. Parte do que observarão de supostos erros são propositais (claro que poderão ter erros não-propositais). Espero que consigam perceber e compreender alguns e o que julgarem ser um erro de fato, por favor apontem-me! No mínimo explicarei minha intenção caso tenha sido proposital.

Aguardo comentários!
Eis:
________________________________



Fiquei sentado lá durante horas, lendo e relendo, interpretando cada enigma dos jornais. Sentia uma dor terrível nas ancas, o suor em minha calça de linho parecia corroer pedaços de minha perna. Depois de dias varando o tempo com os olhos esbugalhados, decidi tomar as rédeas de meu pensamento: dirigir-me-ia até a máquina de escrever, pegaria aquele pedaço de papel e bateria nas teclas até que me faça entender!
Suporto muito mal a vida, nauseia-me o cheiro dessa cidade, as cores dos móveis, mas nada tão insuportável como os artigos semânticos desses jornais.
Sem sair da cadeira, estico-me até a máquina de escrever e a arrasto até mim, estico-me até o papel e o arrasto até mim. Preparo tudo: máquina, papel, dedos e olhos. Certo. Vamos à guerra...

“Caros senhores,

Depois de muito meditado se deveria ou não persistir em minhas divagações acerca das verdades dúbias que nos enviam pelo vão da porta, acho que cheguei a uma decisão única, indiscutível e intransponível: vocês não são tolos por opção, mas por uma crueldade do mundo, e eu tenho por dever nominal orientar-lhes pelos caminhos obscuros da nova asserção que suas pupilas, chocadas e confusas, hão de reinvidicar como o “Novo Paradigmático”.

Vocês ousam escorregar pelas portas com suas ideazinhas de pastelaria, roendo as palavras como um veneno de rato, repetindo insistentemente as coerções do duplo golpe fatal/real, tesão/mistério e outros estratagemas militares dessa empreitada verbal. Não escrevem sobre o gozo de entortar-se, sobre as barbas mal-feitas que abrigam insetos, sobre as coceiras que tenho em meu corpo inteiro, sobre a vingança que elaboram na distorção do sentido e como ninguém vê de fato o que passa por debaixo desse mundo. O jornal que vocês publicam, é ad absurdum por excelência e por louvor de desconstrução. Não vejo uma alma sequer escorrendo dele quando o chacoalho pela manhã, tampouco ouço reclamações quando o mastigo.

Decidi sem revoga, levar o que escrevem um pouco mais a sério. Já adianto: da próxima vez que o jornal escorregar pela minha porta e não houver um traço sequer da nossa nova criação, o “Novo Paradigmático”, escreverei uma carta muito menos amigável, enviarei a todos os líderes dos seres-humanos, obrigarei todos a verem o quão frouxa é nossa cláusula de não-me-toques, não-me-sujes, não-me-limpes, e que estamos todos perdendo o tempo fazendo parte disso.

É de boa vontade que mantenho-me como estudioso, erudito e observador incauto, mas basta mais um faísca para a fornalha alcançar o telhado! Mal sabem a carga que carrego nas costas. De tudo que vi, de tudo que vejo, hoje percevejo.
[O papel estava guardado a muito tempo, e a máquina não tem mais aquele vigor de antigamente]

Despeço-me sem remorso, sabendo que a linearidade cessará assim que o cheiro do papel que esteve comigo passar pela redação. A práxis nunca deve ser reduzida a um estereotipo.

Reforçadamente grato,


Max Kierostam!! “


Demorou alguns dias, mas a resposta chegou. Revi nesse ínterim muita coisa e me orgulho de dizer que me sinto mais palpável do que antes. A resposta confirma que tomei o procedimento correto.

“ Caro Max,

Estamos muito satisfeitos em saber que pessoas como o senhor acompanham nosso modesto jornal diariamente, e que têm uma ligação tão íntima e única com o que escrevemos.

Posso garantir que suas sugestões foram levadas em questão por aqui, e agradecemos sua preocupação com a qualidade de nossa produção. Agradecemos também pelo papel.

Esperamos que consiga notar uma mudança diária em nossa qualidade, afinal estamos sempre no esforço para melhorar. Esperamos também que já tenha melhorado de suas coceiras.

Atenciosamente,

A Redação”


Tolos! Nunca entendem nada!

Max

MensagemEnviado: 24 Set 2007, 23:24
por Malkavengrel
:pidao:

Viva o discurso vazio \o/

Parabens sampaio. Li uma, duas, três vezes. A famosa arte de enrolar. Mas acho que redação fez uma otima carte de resposta, pelo menos um leitura rapida eles fizeram... obviamente não foi suficiente.

Espero ver mais textos deste tipo aqui.

Abraço.

Max

MensagemEnviado: 25 Set 2007, 14:26
por Lanzi
Esse é sem dúvida um dos contos mais interessantes que já li por aqui. Mas preste atenção, interessante não quer dizer melhor.

Interessante primeiramente por causa do tema. Precisei ler mais de uma vez para captar com veracidade o que é que você queria demonstrar. Porque estou acostumado a ler com desatenção nas primeiras vezes. Ainda sobre o tema: entendi a narrativa e tudo e a camada de verniz superficial do texto. Mas não quer dizer que entendi a mensagem - se é que há alguma - na primeira vez que li. Precisamente porque o texto está muito bem requintado e escrito. Gostei muito dessa parte:
estico-me até a máquina de escrever e a arrasto até mim, estico-me até o papel e o arrasto até mim


Podemos até notar uma dose de humor negro. Um anti-herói egocêntrico, arrogante e megalomaníaco. Só vemos os defeitos dele no texto e isso deixa a coisa mais original e viva. Assim como só vemos defeitos na história inteira. O discurso da carta escrita pela personagem é espetacular, da forma como foi escrito. Mas é espetacular dentro de sua maneira, como se fosse quase um pseudo-intelectual prepotente escrevendo a carta.

É um discurso vazio contra o discurso vazio?

E o final fecha com chave de ouro. Provavelmente a mensagem de resposta deve ter sido feita num daqueles geradores. Será que eles entenderam mesmo o que o Max queria dizer? Será que o Max entendia o que ele mesmo queria dizer? Tudo aquilo que ele disse poderia ter sido dito em um parágrafo. Mas se mostra a necessidade da demonstração de conhecimento e poder.

E o jornal? Mais comum é impossível.

Excelente texto.

Abraços.

[só precisava ter deixado uns espaços entre os três primeiros parágrafos]

Max

MensagemEnviado: 01 Out 2007, 00:40
por Dahak
Acho que fica cada vez mais claro que você é uma das mentes mais criativas por aqui. Autêntico é uma boa palavra para ser jogada em seu colo.

A construção da obra foi primorosa, de forma que pareceu meticuloso da primeira linha até o fechamento.

A leitura é rica tanto no quesito estrutural quanto no quesito mensagem. Requer atenção, o que acaba acontecendo naturalmente já que logo de começo nos deparamos com uma situação intrigante.

Esperamos também que já tenha melhorado de suas coceiras.

Uma das passagens que mais gostei, achei super irreverente.

Vocês ousam escorregar pelas portas com suas ideazinhas de pastelaria

Talvez este não tenha sido proposital: ideiazinhas.

Pensando com meus botões, ás vezes faço coro ao Malka e ao Léo e voto em discurso vazio.
Mas na maioria das vezes me pego pensando que foi uma sútil crítica...


Abração!


Dahak Out

Max

MensagemEnviado: 02 Out 2007, 18:23
por Sampaio
Opa! Fiquei realmente feliz com os comentários! Vamos lá:

Malk:
Mas acho que redação fez uma otima carte de resposta, pelo menos um leitura rapida eles fizeram... obviamente não foi suficiente.


Exatamente. Achei sua leitura do conto interessante tb. Obviamente não existe uma interpretação "certa ou "errada" mas gostei de saber que leu e releu o conto. Fico feliz e espero que pelo menos tenha sid uma leitura fuilda e agradável! rs


Interessante primeiramente por causa do tema. Precisei ler mais de uma vez para captar com veracidade o que é que você queria demonstrar.


Sim sim. Fico feliz que o tenha feito pq de fato seu conteúdo na maior parte das vezes escapa a primeira leitura.
Embora, claro, alguem possa ler e ter uma interpretação fatástica logo de cara. A leitura catártica tb é bacana.

Adorei sua interpretação, achei bastante atenta e sagaz. Agradeço tb pelas sugestões.


Dahak: Fico muito feliz que vc tb tenha tido a disposição para ler com cuidado o Conto. Realmente não esperava que isso acontecesse sequer uma vez, e foi uma surpresa ver a resposta positiva dos três.

Talvez este não tenha sido proposital: ideiazinhas.


Foi um dos mais propositais de todos! xD
Aliás, gosto bastante até do trecho em que diz: "Vocês ousam escorregar pelas portas com suas ideazinhas de pastelaria". hehehe

Muito obrigado a todos pelos elogios! Realmetne não esperava uma repsosta tão positiva e fico feliz que o fato do Conto ter uma "conotação" (na falta de uma palavra melhor - talvez "estilo" ) diferente dos demais, tenha sido recebida tão bem.

Agradeço muito. Pretendo postar mais tb. ;)


Abraços!

Max

MensagemEnviado: 02 Out 2007, 18:40
por Dahak
Pretendo postar mais tb.

Eis aqui a minha parte favorita :P


Sabe, essa é uma característica bem sua. Não me lembro de um trabalho seu que não demandasse atenção e que não tivesse uma riqueza de detalhes elavada. São diferenciais seus que sempre despertam muita curiosidade.

Abraço!


Dahak Out

Max

MensagemEnviado: 03 Out 2007, 20:41
por Captain Beefheart
Sampaio, te amo.

Não escrevem sobre o gozo de entortar-se, sobre as barbas mal-feitas que abrigam insetos, sobre as coceiras que tenho em meu corpo inteiro, sobre a vingança que elaboram na distorção do sentido e como ninguém vê de fato o que passa por debaixo desse mundo.


:pidao:

Max

MensagemEnviado: 05 Out 2007, 13:13
por Dahak
Uui, revelações fortíssimas.
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK


Dahak Out

Max

MensagemEnviado: 05 Out 2007, 17:05
por Sampaio
Ei ei! Que fique claro que é platônico esse amor dele!
Pode amar a distância mas se vier com o troço pro meu lado....
:bwaha:

Fico muito contente que tenha curtindo Captain. E Dahak, nem a um apego TÃO grande a detalhes no sentido estético. Ele existe, mas acho que isso ocorre muito mais devido ao fatod e que só escrevo quando já tenho algo mais ou menos elaborado na cabeça. Tema, como escrever, teor da escrita, alguns trechos em mente, o que adcionar, o que deixar oculto, etc.

Valeu a todos!

Max

MensagemEnviado: 05 Out 2007, 19:21
por Dahak
HAUiahOIhahaiouHuiohaOuia
Sem comentários pra você e o Claudião :P

Olha...então tudo isso flui naturalmente?
KKKKKKKKKKKKKKKKKK
Como consigo a carteirinha do fã clube?
:P

Abraços!


Dahak Out

Max

MensagemEnviado: 16 Out 2007, 21:11
por Sampaio
hahahaha

Não sei se "flui"..rs. Tenho algo em mente quando escrevo, reuno várias coisas que vou acrescendo.

Este conto é só o primeiro de uma série de contos que escrevi, que por enquanto estou denominando "Ensaios Sobre A Loucura". Com "Loucura", quero dizer dos vários tipos de "loucura": o louco são, o louco diferente, o louco psicótico, o louco incompreensível, o louco divertido, o louco artista, etc.
Sem preconceito ou pré-julgamentos da palavra "loucura".

Max

MensagemEnviado: 16 Out 2007, 21:12
por Lady Draconnasti
Isso vai ser divertido

Max

MensagemEnviado: 16 Out 2007, 21:18
por Sampaio
hahahahaha Possívelmente.

Como estudante de Psicologia e Filosofia é possível que todos os contos estejam cheios de referências. os que escrevi até então de fato estão. O próximo que pretendo postar então, MUITA psicanálise.

Mas não necessariamente serão agradáveis de ler. :cool:

Max

MensagemEnviado: 16 Out 2007, 22:22
por Dahak
Sampaio escreveu:
Mas não necessariamente serão agradáveis de ler. :cool:

Depende da concepção de agradabilidade. Eu aposto alguns mangos que a próxima postagem será igualmente intrigante e rica.

:)


Dahak Out

Max

MensagemEnviado: 16 Out 2007, 22:41
por Lady Draconnasti
Estando legíve, tá valendo.