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Conversa de Qualquer Esquina

MensagemEnviado: 29 Nov 2008, 01:50
por Emil
Conversa de qualquer esquina


- ...existe um estado de percepção muito mais profundo, de uma profundidade tamanha que você se liga quase que misticamente aos signos, e eu acredito piamente que quando Blake disse sua célebre frase sobre as portas da pecepção, era justamente sobre esta semântica que emana de tudo, mas principalmente da obra de arte, e que nós, quando estamos corriqueiros, não podemos perceber, a que ele se referia; ora, é justamente quando entramos no estado de apreciação que aprendemos novas palavras e tornamos outras mais belas, parafraseando Drummond, mas existe um estado ainda mais profundo de ligação com os sentidos, e eu poderia bem dizer que é um estado de comunhão, sim, com o peso de sagrado que a palavra comunhão tem, com um outro nível da linguagem, um nível tão abissal que de inacessível nos dá a impressão, quando nós estamos comungados, que é uma sabedoria tão antiga e tão pura, que se perdeu há muitas eras, naqueles tempos em que nós cultuávamos e cultivávamos outros deuses, deuses próximos, que caminhavam entre os humanos normais, e eu prometo a você que, se nesse estado você se deparar por exemplo com a Nona Sinfonia, e ela merece toda a ênfase que eu possa dar, você vai entender esse sentimento de um dia, numa caminhada no campo, ou durante a colheita, deparar-se com um deus bondoso, sábio e ao mesmo tempo tão humano quanto você e paradoxalmente muito superior a você, quer dizer, você ouve algo como a Quinta Sinfonia e já é uma realização quase inimaginável, a grande maioria de nós nunca vai chegar perto de realizar algo tão grande, e aqueles que realizarem algo que esteja no mesmo patamar podem ter sua existência chamada de excelentíssima, ela faz uma existência valer a pena, e ainda assim existe esse outro patamar em que está a Nona Sinfonia, de que você, em estado corriqueiro, pode extrair grande deleite, mas num estado de comunhão com os signos mais ocultos do universo, a única conclusão possível é que não tem maneira tal que isso possa ter sido concebido por mãos humanas, e ainda assim ela existe, e eu juro, você vai ouvir Cio da Terra com todas as vozes do Milton Nascimento, e por mais estranho e herético que isso possa lhe parecer agora, você vai perceber que essa é uma obra de arte que está no mesmo patamar que uma Nona Sinfonia, porque nos coloca em contato com o mesmo Belo, este belo que está sob o signo do infinito, mas não tem maneira de você saber o que é infinito agora, porque por mais que eu me esforce, que eu use as palavras que eu sei, e aprenda novas, e torne as minhas mais bonitas, aquilo que é infinito é incomunicável, e no fundo é isso que esta percepção mais profunda é: um conhecimento do incomunicável.

- Pode ser, mas não adianta, eu não vou pagar o preço de dois pra um nisso aí não. Vai ser o dobro do esforço e do tempo preu ficar balão assim, e se pá nem. Então se você quiser que eu fique com essa bucha, pelo menos me dá meu troco.

Conversa de Qualquer Esquina

MensagemEnviado: 30 Nov 2008, 12:33
por Lanzi
Pareceu-me um daqueles pseudo-intelectuais com sérios problemas de expressão. E justamente quando o diálogo pareceu que ia descambar pra esse lado intelectualóide, houve uma quebra de expectativa que foi muito conveniente e aconteceu de todas as formas.

Notei também a ironia do título.

Não sei se foi por causa da forma escolhida, mas o texto acabou me parecendo bem despretencioso, apesar de termos algumas coisas bem aproveitáveis no que diz o primeiro parágrafo. O que, não sei dizer se é bom ou ruim.

Abraços.

Conversa de Qualquer Esquina

MensagemEnviado: 07 Dez 2008, 13:13
por Captain Beefheart
Não sei que palavras usar, talvez "explícito demais", o que pode ter sido a intenção mas não me impede de achar que você poderia fazer melhor, Emil.

"Conversa de qualquer boca" seria um bom título, também.

Conversa de Qualquer Esquina

MensagemEnviado: 23 Dez 2008, 09:46
por Madrüga
Eu gostei, e é um daqueles textos que temos um certo medo de comentar (porque falar bobagem seria muito fácil); mas concordo mais com o Lanzi aqui. Só que também concordo com você mesmo, Emil, quando disse que a última fala poderia ser melhor. É boa, mas tem algo que poderia ficar mais interessante, ou mais direto, não sei.

Conversa de Qualquer Esquina

MensagemEnviado: 23 Dez 2008, 10:10
por Elara
Grande Emil!

Esse texto me fez lembrar as conversas da galeria de arte em que eu trabalhei. XD

No mais, também me lembrou uns textos antigos do meu esposo.

Não sei dizer se gostei ou desgostei. Mas me arrancou um sorriso.

Parabéns.

Chero!

Conversa de Qualquer Esquina

MensagemEnviado: 23 Dez 2008, 22:29
por Dahak
Tudo certinho Emil?
Espero que sim.

Sabe que quando leio seu nick sou remetido a um passado distante que abordava uma certa gota? hahahahaha
Na minha cabeça é como aquele trabalho que vira sinônimo do autor. E creio que ele passa bem longe de definir aquilo que você escreve, mas foi bem marcante. Ainda o possui? Poderia postar aqui pra gente ;)

Sobre esse aqui, diria que ele é predominantemente peculiar. A começar pela estrutura longa do primeiro parágrafo, da idéia de que começa "já em andamento", como se tivesse um começo não apresentado, da disparidade dos envolvidos no diáologo e etc.

Lembro que nos meus primeiros dias de Spell você era um dos poucos universitários que participavam da seção. O tempo voa, né?

Ai, chega de divagações, hahahaha

Abraço!

Dahak Out