Desculpe pessoal,
Não postei na segunda-feira porque simplesmente... esqueci.

Chero!
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O Mistério de Saint Maria - Parte VIII
Lobo_BrancoPalácio Boulevard d’Athos, arredores de Paris, 25 de Janeiro, 1776Uma porta range ao ser aberta, dando espaço para duas figuras adentrarem um luxuoso cômodo. Um velho com uma peruca de nobre e casaca azul, e uma jovem criança de aproximadamente oito anos, com culotes marrom, camisa de linho branca, cabelo num pequeno rabo de cavalo e sapatilhas sujas.
O velho pousa a mão sobre o ombro da criança, e esta como se treinada, fecha os olhos.
_ Bem minha criança, diga-me, o que há nesse recinto? _ a voz calma porem autoritária.
_ A cinco passos da porta em direção ao nordeste há uma cama larga, de em media um metro de altura. Suas cortinas estão meio arreadas, são feitas de seda indiana vermelha. A ponta da cortina do lado esquerdo está um pouco comida por traças. Sobre a cama há quatro, não, cinco travesseiros brancos, e a mesma está coberta com um lençol branco, com cavalos bordados em dourado.
_ Ao lado da cama há um criado-mudo e sobre ele existe uma estatueta de uma Vênus. A duas gavetas no criado, ambas fechadas. As prováveis chaves estão penduradas na cabeceira da cama, digo provável porque a primeira vista seus desenhos lembram o desenho das fechaduras. _ o jovem, ainda de olhos fechados toma ar, sua voz era carregada com um ar de medo. _ Na parede esquerda há duas espadas cruzadas sobre um escudo, que tem bordado sobre o coro o brasão da família. A poeira tirou o brilho das espadas, e o couro do escudo se encontra pálido e encardido.
_ Sobre a cama há um lustre de cristal com 32 entradas p/ velas, porem, apenas 19 estão ocupadas. Dele pende teias, o que mostra um certo deslize da governanta. Logo à frente da porta, existe uma varanda, porem meia cortina esconde o jardim, enquanto a outra cortina se encontra amarrada junto à parede. Elas são de um veludo vermelho, porem, este também já se encontra desbotado e com algumas pontas comidas. Em cima da cortina há um ninho, vazio, abaixo dele se encontra pequenos vestígios de casca dos ovos eclodidos.
O jovenzinho tomou ar, um leve sorriso foi esboçado em sua tenra face. Pela primeira vez tinha memorizado tantos detalhes, não seria repreendido, não desta vez.
O estalo da chibata contra as costas dele foi alto. A camisa rasgou e um filete de sangue jorrava de suas costas, marcada por outras feridas e cicatrizes similares.
A criança foi ao chão, lagrimas escorria de seus olhos, porem ele mordia os lábios para não emitir nenhum som.
_ Foi bom, por isso recebera apenas uma chibatada meu jovem Armand. Porém você deve sempre lembrar, para sobreviver deves gravar e perceber a tudo. O mundo deve ser uma tela em sua mente. Uma tela!
Palácio Boulevard d’Athos, arredores de Paris, 20 de Fevereiro, 1776O velho anda pela sala de estudos. Ele circunda a mesa onde o jovem está sentado, em frente a dez cartas, aparentemente todas iguais. A sua postura ereta, segurando a chibata, olhando cada movimento da criança como um lobo olha os cordeiros.
O jovem Armand come as cartas com os olhos, analisando cada letra, cada linha. Ele as ler e reler, quase não pisca. As espalha, compara de duas em duas, três em três. Esse pequeno ritual se prolonga até ele as separar em três montes sucintos e manter uma na mão.
_ A única legitima é essa em minha mão, meu senhor. Eu as dividi em três porque elas, apesar de únicas, seguem três tipos de características marcantes das falsificações. As à minha direita apresentam um espaçamento levemente maior entre as letras e linhas. Alem de que os pingos e acentos sempre se mostram levemente inclinados para a esquerda. As da esquerda, se mostram corridas de mais, e escritas com força. Essas na minha frente, se mostram calmas, apáticas de mais. Ninguém escreve cartas de amor com toda essa calma.
_ Eu sei que essa é a verdadeira, porque a letra é leve, passional, porem assim como o conteúdo revela, o tolo apaixonado estava agoniadas com a situação, algo refletido na inclinação e proximidade das palavras, e algumas palavras são meio borradas, geralmente sentenças mais abaixo, na altura do punho de onde se revelam declarações mais difíceis de serem feitas por um homem orgulhoso. Está machado porque foram escritas sobre papel úmido de suor.
A criança olhou para o velho. Ele sorria, e se aproximava com passos lentos. Antes do terceiro passo, o jovem soltou um pequeno gritinho, erguendo as mãos.
_ Não me bata, eu acertei, eu acertei!
O velho sorriu mais uma vez.
_ E então minha raposinha, por que eu irei te bater?!
O jovem tremia, procurava uma razão, mas sabia que estava preste a ser castigado.
_ Seus olhos brilham, seu maxilar está contraído e a artéria em seu pescoço alterou levemente. Seus olhos caíram sobre meu ombro, está a mirar o lugar do castigo. Mas eu acertei meu senhor. Não devo ser castigado eu acertei!
O velho deu mais um passo, seu sorriso tinha virado um riso de jubilo.
_ Es ótimo meu querido. Aprendeu como ninguém nesses últimos três anos, mas ainda tem muito a aprender! _ a frase foi findada com o estalo da chibata, caindo sobre o ombro do rapazinho, o fazendo arrear sobre a mesa, manchando levemente a mesma com seu sangue. Mais uma vez ele morde os lábios até ferir, emudecendo seu choro.
_ Me deu uma informação baseada numa suposição, uma imaginação sua. Na carta não há nenhuma pista que faz do homem um homem orgulhoso.
Com choro na voz, em um esforço sobre humano o pequeno Armand solta um sussurro:
_ Há sim meu senhor. Ele assinou abaixo do recomendado, fugindo de um lugar úmido, de uma assinatura borrada. Seu nome é limpo e legível, ele se orgulha de quem é. È um homem orgulhoso!
O velho sorri, olhando a carta. Ele afana a cabeça do rapaz e lhe entrega a chibata.
_ Sou eu que mereço a chibatada meu jovem. Bata e depois pegue suas duas moedas de ouro. Foi perfeito.
O garoto encara a chibata e a deixa sobre a mesa. Com um abraço e não uma pancada ele corresponde ao seu tutor.
O velho surpreende-se, e o afeto é bem recebido de inicio, sendo concluído com um forte apertão na ferida recém feita.
_ Você me orgulha apenas para me decepcionar meu caro. Não deves se mostrar afetuoso com aqueles que lhe são perigosos. Não afeto de verdade, isso mostra uma fraqueza sua. Recomponha-se e suma de minha frente até o resto do dia!
Armand saiu da sala de estudos correndo, enquanto o velho sentado na poltrona ria e derramava furtivas lagrimas.
_ Ele está crescendo velho, e te odiará se não deixar de ser rabugento. Ha ha ha!
Palácio Boulevard d’Athos, arredores de Paris, 19 de Junho, 1785Noite chuvosa e com uma espessa neblina. Duas figuras se encontram no pátio do palácio, um velho curvado, com uma capa fechada sobre si, tentando se proteger do frio, e um jovem de olhar astuto, apenas de culotes. Seu corpo ostenta cicatrizes de antigos castigos.
À frente deles se encontram quatro corpos inertes, deitados e frios. Duas mulheres e dois homens.
O jovem se aproxima deles, com um ar de despreocupado. Seu sorriso cínico e seus passos despreocupados incitam a ira do velho tutor. Ele para próximo aos corpos, tirando uma pequena navalha presa a sua calça, e começa a girá-la, brincando.
_ Sabe meu senhor, esse teste está deveras complicado. Meu sucesso deveria me garantir uma boa premiação, não concordas?
_ Terás uma ótima premiação, proporcional ao castigo que te esperas caso falhes meu garoto.
O jovem parou ao lado de cada corpo, verificando suas arcarias dentarias, seus membros e a rigidez dos mortos.
_ Bem os dois homens têm por volta dos trinta anos, sendo todos os dois trabalhadores braçais. Uma das mulheres tem em torno de 50 anos, e apresenta inchaço nos pés e joelhos, de certo ela é uma lavadeira e andava muito durante o dia. A outra moça deve ter seus 15 anos, uma belezura. Sua pele é lisa e seus dentes bem tratados. E ela é apenas uma donzelinha ainda _ afirmação vê, acompanhada do ato de enfiar os dedos no sexo do jovem cadáver _ Sabe velho, às vezes eu acredito que tu és um puto.
Armand se ergue, sorrindo, cheirando a mão a qual ele checou a virgindade da moça. Com um sorriso ele rasga as roupas dela, manuseando com precisão cirúrgica a navalha, a livrando de todos os panos molhados que a cobriam. Seus dedos hábeis dançam sobre o corpo da rapariga, pressionando, beliscando. Ele a vira, a analisa de todas as formas. Cheira sua boca, checa seus olhos, faz pequenos cortes por seu corpo.
_ Uma morte tranqüila, foi envenenada. Provavelmente morreu em meio a um sono tranqüilo, depois de um dia de indisposição.
Ele ergue-se, indo analisar outro corpo, repetindo o mesmo processo em cada um. Lendo a morte impregnada em cada corpo, deduzindo as formas e o tempo que demorou a a vida deixá-los. Suas afirmações são acompanhadas de um sorriso de satisfação do velho.
Ao fim da tarde, com a chuva já extinta, Armand se encontrava sentado na escadaria, observando os corpos largados ali, brincando com uma moeda de ouro, moeda esta que sempre estava com ele, seu primeiro acerto.
_ Sua evolução foi incrível rapazote, doze anos de intenso treino, e hoje creio que és o mais atento e perceptível nobre de toda a França. Sois capaz de contornar e prever cada maquinação contra vossa pessoa. Deves se manter longe dos vícios e vicissitudes que essa vida acarreta, e então manterá-se-a sempre no controle de todas as situações. _ disse com orgulho o velho, que trazia vinho para ambos.
Armand pegou o vinho, e o cheirou, umedecendo os lábios em seguida.
_ Da nossa safra nos vinhedos do sul. A mesma idade que tem o meu “treinamento”.
_ Suas habilidades refletem até mesmo como um ótimo enologo. _ riu o velho.
Palácio de Versalhes, corte Parisiense, 26 de dezembro, 1786Armand acabava de acordar, estava num dos muitos quartos do palácio da corte, ao seu lado estava uma velha baronesa de 50 anos e uma jovem empregadinha. Ele nunca tinha se divertido tanto quanto no baile da noite passada. E se divertira mais ainda nos joguetes que fez a noite com a baronesa e a empregadinha.
Dominará todas as conversas, descobrira todas as mentiras, revelará todos os medos superficiais das pessoas. Conquistar uma velha e convencê-la a trair o marido era fácil. Seduzi-la para que lhe fosse doado o seu belo colar também não fora tão difícil.
Ele saia do quarto satisfeito, uma garrafa de vinho na mão, segurando as calças na outra, as outras peças de roupa estavam em seu ombro. Com uma surpresa ele viu seu tutor na frente de sua porta com uma cara não muito amigável.
_ Espero que tenha aproveitado sua festa noturna. Deverias ser punido, apesar de ter conseguido tudo que eu mandei você fazer, não tinha dado-lhe autorização para desfrutar da senhora de Mersailhes.
Armand apenas deu de ombro, lhe passando o vinho.
_Bem tenho uma ultima missão senhor Armand. Ouve um assassinato brutal nessa noite e você tem até a virada do ano para revelar o verdadeiro culpado dessas maquinações da corte. Caso contrario, eu colocarei você como o assassino. Boa sorte meu garoto. _ com uma leve vênia e um sorriso sádico o velho retirou-se pelo imenso e luxuoso corredor do maior palácio da Europa.
Canal da Mancha, Ilha de Guernesey, 10 de Temidor (27 de Agosto) de 1793Sentado num bar, no porto, se encontra alguns marinheiros e no canto, um velho barbudo e desleixado conversa com um jovem oficial francês. O rapaz é de uma beleza felina, analisando o velho a sua frente enquanto enrola levemente seu bigode.
_ Como eu ia dizendo meu bom Menug-sur-Loire, há sete anos atrás eu estava investigando um assassinato que houve na corte. Naquela época a corte ainda regia nosso belo país. Minha pesquisa revelou uma bela intriga, com a alta nobreza e alguns burgueses, envolvendo agiotagem, adultérios, seqüestros, estupros e tudo o mais que pode encher os ouvidos numa estória, no fim daria um belo folhetim romântico. _ dando um trago no vinho de segunda, sem tirar os olhos do velho a sua frente, Armand deixou a mão cair sobre a pistola que estava sobre a mesa.
_ O mais triste de tudo, foi que aquilo culminou na possível incriminação de meu tutor. Era um velho rigoroso, porem um grande homem, devo a ele tudo o que sou hoje. Bem eu como um bom filho não podia traí-lo, e forjei provas para a culpa cair sobre um burguês, e adivinha, ao invés do meu tutor me agradecer, me parabenizar, ele me mandou para Paris. No fim eu aprendi muito por lá, e conheci boas pessoas que me mostraram muito do mundo que meu tutor não fez. No fim, devo a ele até mesmo meu cargo como investigador a serviço do governo. Irônico não, eu dever meu alto cargo na Republica a um nobre.
Armand sorria, enquanto degustava seu vinho. O velho sorria sempre concordando com o que ele dizia, também bebendo do vinho.
_ Então, a cá estou eu, procurando por um traidor da revolução, um ladrãozinho barato, e a quem minhas investigações levam?! Ao meu velho tutor, veja se a sorte não sorrir para minha pessoa? _ Armand termina seu copo, encarando o velho maltrapilho_ E então meu querido Menug-sur-Loire, o que achas que devo fazer? Entregá-lo as autoridades, como ele acredita que eu deveria ter feito no passado, ou deixar minhas emoções falarem mais alto e mais uma vez deixá-lo fugir?
O velho encarou Armand, seus olhos lacrimejaram, e ele tentou dissimular seu olhar que pedia clemência.
_ Deves fazer o que crêes que seja o melhor, meu garoto.
_É bom saber que concordas comigo meu senhor. Sabe, se ele apenas fosse um nobre, se apenas quisesse fugir para a Inglaterra, mas ele teve que roubar documentos e planos, que podem ameaçar nossa Republica. Ele ameaçou tudo o que eu acredito, e isso está acima de mim e de meu amor por ele. Por isso eu peço que me perdoe Gilliat, mas fique tranqüilo, sua morte será indolor, graças a você eu aprendi a manusear bons venenos, e graças a sua idade você não o percebeu em seu vinho. Poderás fugir para a Inglaterra, mas preferiria que morresse em solo francês.
Armand levantou, colocando a pistola na cintura mais uma vez. Seus passos firmes o levavam a saída, quando ele parou.
_ E não se preocupe, nossa família não morrerás, apesar de não termos o mesmo sangue, eu continuarei portando nosso nome.
Saint Maria de Douleurs, 14 de Nivoso de 1810_Devem se preparar homens, vasculharemos todas as casa atrás do culpado. _ gritava o capitão Piccard _ Coloque em ferros todos os suspeitos!
Armand chegava a galope, cedo o suficiente para pegar a ultima sentença sendo gritada da boca do jovem capitão. Ele via os soldados começarem a se mobilizar, muitos seriam pegos naquele dia, muitos mortos, mas dificilmente o suspeito.
Armand riu consigo mesmo ao ver a sede de vingança que tomava o corpo militar.
_ Com certeza colocará a ferros o criminoso, ou o fará correr como um cordeiro da cidade. Mas levará tempo meu jovem capitão, e inegavelmente atrapalhará a nossa verdadeira investigação aqui. _ sorriu Armand, se aproximando do serio Eleric.
_ Como atrapalhará nossa verdadeira investigação?! Com toda a certeza Senhor d’Athos, o mesmo crápula que matou Fradique é o responsável pelo sumiço das mulheres!
_ Eu acho deveras difícil meu caro Piccard. Ele pode ter sido até mesmo o responsável pela morte do filho do prefeito, mas há não ser que ele seja um grande atleta, e goste de subitamente mudar seus hábitos criminosos, ele matou o seu bom soldado. _ Armand caminhava pela região, analisando casa passo seu, cada detalhe de tudo aquilo _ Não sei se já te é sabido, mas encontraram mais um corpo.
_ Sim, me informaram há pouco. _ disse o ainda irritado Piccard.
_ E a distância que ele foi encontrado é a quase uma hora de cavalo daqui, por causa da neve. Então nosso sabotador não pode ter matado a jovem. Claro que há a possibilidade dela estar morta a mais tempo, mas como estamos aqui para resolver isso e todos conhecem nosso propósito, se ela tivesse sumido antes, algum pai ou marido preocupado teria nos avisado. _ disse o investigador, enquanto ascendia seu cachimbo _ Então meu jovem capitão, eu gostaria de que desse as ordens necessárias para seus homens e me acompanhe até onde o corpo da jovem está. Depois eu prometo-lhe checar essa área, então mantenha seus homens longe dela. E os corpos intactos.
_ E o que sugere que eu faça meu bom d’Athos?_ disse Eleric enquanto preparava sua montaria.
_ Apenas mande os soldados manterem tudo como está, enfie os corpos na neve, ficarão preservados. Depois os mande notificar na cidade que temos um pronunciamento importante a fazer. Nosso sabotador cairá em uma pequena armadilha.
Logo ambos estavam cavalgando a galope em direção de uma fazenda próxima a mina de ferro.
Fazenda Saint Louis, 14 de Nivoso de 1810Por duas horas Armand examinou o corpo da jovem. Ela tinha sumido na mesma noite. Segundo relatos do pai, seu estábulo fora atacado, todas as galinhas mortas, juntamente com uma das duas vacas. Quando ele voltou de examinar o estábulo sua filha tinha sumido do quarto, a porta aberta.
O corpo tinha sido comido, varias partes estavam mordidas, outras mastigadas. Encontrava-se um pelo negro e grosso embaixo das mãos da garota, e cortes que Armand jurava ser de garras, pois estavam disformes e forçosas de mais para serem feitas por qualquer lamina, até mesmo cega. Alem de serem próximos de mais, quase a mesma proximidade entre os dedos da pegada de lobo que ele encontrara na casa do senhor d’Anjou. O mais estranho era que os olhos da garota estavam faltando, mas não tinha nenhuma marca ou ferimento próximo aos mesmos.
_ Como eu lhe disse, meu caro Piccard, as mortes não seguem o mesmo padrão. E creio, nosso assassino tem um cão, talvez um lobo, pelo tamanho.
Saint Maria de Douleurs, 14 de Nivoso de 1810Loup-Marrie conseguira chegar em casa sem ser visto por ninguém. Sempre teve hábitos furtivos e gatunos, e no inverno nos Pirineus poucos ficavam fora do calor de suas casas e ofícios.
Entrou sem ser visto pelo pai, e se manteve a manhã toda, ou o que sobrara dela, na cama. Alegara sofrer de febre e se melhorasse iria para a oficina.
Seu pesadelo o atormentava, sempre que adormecia acordava num sobressalto, mais cansado do que antes de adormecer. O gosto ferroso não saia de sua garganta e por mais de uma vez ele vomitou. Ao fim do dia, com o sol já a se pôr, ele conseguiu adormecer de forma tranqüila, mas logo foi acordado com um arranhar no chão próximo a sua cama.
No canto mais escuro de seu quarto ele pode identificar um par de olhos vermelhos, brilhando na escuridão. Demorou a ele perceber que ali estava um enorme cão negro, o mesmo que o persegui desde a infância.
Loup se encolheu e tentou gritar, mas a voz não conseguia sair de sua garganta. Ao lado do lobo, agora, havia uma velha de olhos fundos e pele esquálida, vestindo enormes trapos que lembravam uma mortalha. Ele balbuciava algo em uma língua desconhecida, parecido com algo que Joannah falava com os seus.
Num repente ela rasgou parte de sua vestimenta, colocando seu deformado seio para as vistas, e começou a amamentar o lobo. Um leite viscoso e amarelado escorria pelas mandíbulas do animal enquanto ele sugava violentamente o seio da mulher. Ela ria e gemia a cada instante, se arrastando para próximo do tremido Loup-Marrie.
Foi com um puxão forte, mais forte do que o possível para uma mulher de sua idade e condições seria possível de dar, que a mulher colocou a face do jovem contra o outro seio dela. O cheiro do animal, da velha e do liquido que escorria encheram Loup-Marrie de uma ânsia de vômito tremenda, porem a velha o forçava a sugar seus seio e amamentar daquele liquido pútrido.
Numa tentativa desesperada Loup afastou-se da velha, esforço que resultou em sua queda da cama. No chão, ao abrir os olhos, ele virou e vomitou mais uma vez, mesmo seu estomago estando vazio. Com olhos lacrimejando ele olhou pelo quarto e nenhum ser vivente alem dele havia ali.
_ Meu Deus, proteja-me desse mal. Se esses pesadelos continuarem, eu enlouquecerei!
Praça da Câmera Municipal, Saint Maria de Douleurs, 14 de Nivoso de 1810A noite já avançava, porém ao invés das pessoas irem para o abrigo de seus lares, se amontoavam em frente à prefeitura. O capitão Piccard havia marcado uma assembléia, um notificado de suma importância iria ser feito, e todos eles precisavam saber do que se tratava. Rezavam para que o culpado dos assassinatos tivesse sido pego.
Do alto de um palanque improvisado, em frente à multidão atenta, estava d’Athos e Piccard a observar a tudo e todos.
_ Muitas boas noites meus caros. _ disse Armand com uma voz encantadora, capaz de conquistar até mesmo um inimigo _ Estou a cá para fazer um pronunciamento deveras triste e preocupante. Temos em meio à tão boa gente, tão adoráveis patriotas um dissimulado traidor. Uma víbora que ataca os franceses, nos matando e amedrontando, nos tornando frágeis e controláveis. Essa noite, essa maldita víbora fez mais duas vitimas de suas maquinações. Um jovem e inocente senhorita e um valente e valoroso soldado. Soldado este enviado para cá com o único intuito de proteger vossas senhorias.
_ Somos novos e incapazes, ainda, de avistar essas víboras, pois elas se escondem entre vocês, em seus lares. Por isso estou a cá, estou a pedir a vossa ajuda. È de suma importância que apontem o traidor, para então o nosso valoroso exercito de cabo dela. De certo é um homem robusto, e aposto que seja estrangeiro ou tenha influências estrangeiras.
_ Digo que se trata de um estrangeiro, pois, me faço incrédulo, que democratas como nós, um povo evoluído que pós abaixo as amarras da aristocracia, a nação produtora dos maiores filósofos e homens, a primeira grande republica da Europa, quiçá do mundo, seja capaz de trair nós mesmos. Isso seria negar todo o sangue já derramado na revolução, isso seria negar o nosso desejo no plebiscito, onde colocamos Napoleão no poder, seria negar a grandiosidade do Império Francês.
_ Peço-vos que atendam a suplica desse velho homem, que lutou desde o inicio da Revolução, não se deixem enganar pelo linguajar doce e promessas de liberdade desse traidor. Lembrem-se de como eram nossas vidas com o domínio dos Borbons. Éramos escravos da terra, produzíamos para alimentar seus exageros enquanto nossos filhos morriam de fome e frio. Aviso-vos, aqueles que estiver ajudando o traidor de Império, está ajudando a volta da opressão da igreja e da aristocracia, está trabalhando para a volta da miséria e dividas da nossa fabulosa nação.
_ Eu tenho aqui comigo, uma carta de recomendação do nosso grandioso Imperador, me dando plenos poderes para punir os traidores, porem ele pede para ser dócil e carinhoso com seus conterrâneos do império francês. Pois, em palavras de Bonaparte nesta carta, “um grande chefe deve se ver como um pai, e seu povo como seus filhos. Devemos proteger e guiar nossos filhos, utilizando plenas forças para isso. Mas nunca devemos voltar por cegueira, essa força contra eles, pos se erram é por ignorância, e é nosso dever mostrá-los a luz e ajudá-los a diferenciar o joio do trigo.”
_Mais uma vez eu peço vossa ajuda povo de Saint Maria, não se deixem enganar por ingleses, espanhóis, russos, ou seja mais que nação se ponha contra nosso crescimento. Como uma forma de boa fé, e para sobrepujar qualquer represália que o traidor possa ter contra vocês, pois eles podem ser patrões, esposas, maridos, pais, estou a cá, disponibilizando uma carta no valor de cem francos, alem de alojamento até o fim da crise na bela Paris, próximo no palácio de Tolherias, sobre a tutela direta do nosso imperador. Lembrem-se, vocês não estarão traindo ninguém, pois aqueles que pedem seu silencio e apoio está traindo tudo que somos e tudo pelo o que lutamos desde 1789. Mais uma vez muito boas noites e obrigado, estarei esperando o apoio de vossas senhorias o mais breve possível. O senhor LeBlainc lerá a carta para vossas pessoas, e espero que elas lhe toquem, tão profundamente como me tocou.
Após o discurso inflamado de Armand, ele se retirou juntamente com Piccard. Até mesmo o capitão se emocionara e se encontrava surpreso com a importância que sua missão tinha, o próprio Bonaparte estava olhando pelo bem deles.
Já longe dos balbucios da multidão, cavalgando para a taverna onde estavam alojados, Eleric não agüentou a emoção:
_Incrível senhor d’Athos, simplesmente incrível! Não só seu discurso conseguirá acordar nosso senso patriótico como nos mostrou a importância que nosso bom imperador tem com todos nós. Acredito que logo resolveremos isso, pois o povo agora está conosco.
_ Sim, logo pegaremos os suspeitos de traição, em meio a muitos inocentes, mas com facilidade eu saberei diferenciá-los, pois, venho fazendo isso desde o cinco anos de idade. Sou praticamente infalível, e minhas ratoeiras tendem a pegar os ratos. _ disse sorrindo Armand de Sellègue d’Athos _ Mas não se sintas tão pressionado, a carta é falsa, eu a escrevi, mas creio que até o próprio Napoleão se confundiria com ela, até seu selo se encontra nela, então não há o menor risco de sermos pegos e termos nossa confiabilidade abalada. Vamos meu bom rapaz, tomaremos um bom vinho e esperamos o resultado de nossa jogada.