O Mistério de Saint Maria - Parte X

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O Mistério de Saint Maria - Parte X

Mensagempor laharra em 17 Mai 2008, 22:42

Continuo acompanhando o conto. Sobre o capítulo que destoou, prefiro não dizer qual. Só percebi que em alguns a pontuação deixou um pouco a desejar, e a leitura se arrastou um pouco. Acredito que uma revisão por um ou outro contista antes da postagem seria ideal... :cool:

Não sei se acontece com os outros, mas os trechos de Armand são os mais divertidos para mim. :victory:
Tentando encontrar inspiração para terminar o conto abaixo:
O Som do Silêncio: Parte IV - A decisão
Reger está às vésperas de uma batalha onde decidirá seu futuro. Durante o que podem ser seus últimos momentos com a Espada e com Alyse, ele se pega pensando sobre a validade de suas aspirações. Acompanhe o conto no link a seguir:
http://www.spellrpg.com.br/forum/viewtopic.php?f=24&t=1067
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O Mistério de Saint Maria - Parte X

Mensagempor Elara em 19 Mai 2008, 15:37

Laharra,

Ok, ok. Bom, a proposta era que, à medida que eu fosse repostando, os contistas revisassem o material e enviassem as correções para mim, para que eu pudesse editar. Mas até agora, não recebi nada. :roll:

Gosta das partes de Armand? Então você não perde por esperar o capítulo VIII, após este que segue abaixo. Aguarde. XD

Chero!

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O Mistério de Saint Maria – Parte VII

Elara


Arredores de Saint Maria, entardecer de 13 de Nivoso de 1810

— Fradique, você ficará nesta estrebaria montando guarda para ter certeza que nossos animais estão a salvo. – a voz de Armand soava tranqüila porém firme. – Seguirei com a comitiva para a cidade. Pela manhã nos encontramos novamente.
— Sim, senhor. Manterei tudo sob controle.
— Soldados, desçam dos cavalos. – ordenou Armand. – Apenas eu e o capitão Piccard entraremos na cidade cavalgando. O restante virá a pé. Não queremos causar alarde à população pacata da cidade.

Uma leve agitação tomou conta da estrebaria enquanto todos tomavam seus pertences e desciam preparavam-se para seguir para a cidade. Enquanto isso, Armand e Eleric esperavam a alguns metros. O sol teimava em por fim na tarde e a temperatura começava a cair um pouco. Com a comitiva preparada para seguir deixaram Fradique de guarda e andaram cerca de dez minutos até chegar na cidade.

Fradique foi procurar o dono da estrebaria para acomodar os cavalos de forma devida. O local era bem espaçoso e confortável, parecia casa de herança de família, dado o tamanho. Na entrada uma placa de madeira trazia talhado o nome do lugar: Estrebaria Menarien. O soldado achegou-se ao balcão e dirigiu-se ao senhor atarracado que encontrava-se do outro lado:

— Boas noites, senhor. Gostaria de acomodar cerca de quarenta e oito cavalos. Teria espaço para tanto?
— Boas noites, meu bom homem. Sim, teria. Aqui é muito espaçoso e não recebemos muitas visitas. O senhor há de querer também um quarto para dormir, não?
— Não se faz necessário. Passarei a noite de guarda.
— Seria o senhor membro da comitiva que nosso bom prefeito solicitou?
— Sim, acabamos de chegar. À propósito, sou o soldado Fradique Arrivè, ao vosso dispor.
— Jonas Menarien. Agora venha, meu bom homem. Vou mostrá-lo onde ficarão os cavalos. Porém, temo que terei espaço para quarenta e seis dos seus quarenta e oito cavalos.
— Não há problema. Dois hão de ficar comigo na guarda.

E dizendo isso, o senhor tomou uma casaca pendurada atrás da porta e seguiu pelos fundos da casa, seguido do soldado. Enquanto passava pelo corredor, Fradique pôde observar que havia alguns quadros cobertos na parede, além de teias de aranha por toda parte, o que denunciava certo descuido em contraste com todo o conforto presente na sala de entrada.

— Aqui poderá acomodar os cavalos e nesse pequeno aposento vossos pertences. – disse o velho abrindo uma pesada porta de madeira.
— Obrigado, senhor Menarien.

O velho ensaiou uma vênia e retirou-se. O quarto estava limpo, apesar das paredes apresentarem algumas infiltrações, culpa do frio e das instalações antigas. Fradique colocou suas coisas em cima da cama, retirou apenas o necessário para a noite e tomando dois cavalos dirigiu-se para a entrada do bosque próximo dali. Tomou alguns tragos de seu vinho para esquentar o corpo e amarrou os animais.

Menarien entrou novamente para a estrebaria e chamou seu único empregado.
— Francis, vá até a praça central e procure o senhor Pedro Alencar. Ele deverá estar em meio à multidão verificando a comitiva que se achega nesse instante. Você o identificará pela sua estatura e olhos azuis.
— Está bem, sr. Menarien.
— Diga a ele que os animais da comitiva encontram-se em minha estrebaria e que apenas um soldado os guarda.

O jovem devia ter em torno dos seus vinte e um anos, ninguém sabia ao certo. Fora abandonado na porta do sr. Menarien quando tinha menos de um ano. Menarien o criou e apesar de tratá-lo como empregado tinha um amor quase paterno pelo rapaz. Francis sabia disso, e fazia todo o possível para não desagradá-lo, apesar de não ser a favor da conspiração que Menarien vinha tramando contra o governo napoleônico.

Logo que chegou à cidade o jovem percebeu a agitação que tomava conta da praça central. Realmente não fora difícil encontrar Pedro Alencar. Ele estava falando com o alfaiate Loup Marrie. Ao que parece Loup-Marrie entregava algo a ele. Francis parou a alguns metros e esperou pacientemente. O homem corpulento apertou a mão de Loup-Marrie e saiu apressadamente, sendo logo abordado pelo rapaz.

— Sr. Alencar? Trago um recado da parte do Sr. Menarien.
— Oh, diga, meu jovem. – o sotaque forte de Pedro Alencar podia ser percebido claramente.
— Os animais da comitiva encontram-se na estrebaria na entrada da cidade. Apenas um guarda os vigia. Até mais.

E o rapaz virou-se para então sumir na pequena multidão. Pedro Alencar ainda ficou observando de longe a comitiva ser recepcionada. Logo identificou as figuras de maior patente do grupo, observando que dois deles se dirigiam à casa do prefeito, junto ao Sr. LeBlanc, seu secretário. Quando o burburinho começou a desfazer-se, Pedro saiu em direção à entrada da cidade, e andando mais um pouco pôde ver a estrebaria.

Uma neve fina caía. O céu começava a ficar escuro como uma gaze-negra, dando um reflexo azulado ao ambiente outrora embranquecido. Pedro Alencar fez a volta por trás da estrebaria e percebeu rapidamente onde se encontrava o guarda a que o jovem empregado do Sr. Menarien fez referência. Furtivamente, Pedro dirigiu-se para a entrada oposta em que se encontrava o guarda e aguardou até escurecer completamente.

Fradique observava atentamente o local da estrebaria em que se encontravam os cavalos. Tomou mais um trago do seu vinho e resolveu andar um pouco pela entrada do bosque. Um vento forte assobiou em seu ouvido, enregelando sua espinha. A neve ia gradativamente acumulando-se, afofando seus passos no caminho. Parou um pouco para aliviar suas necessidades fisiológicas. Suspirou aliviado.

Pedro esgueirava-se gradativamente, espreitando a cada árvore a melhor posição para aproximar-se. Num movimento rápido, aproveitou-se da fraqueza fisiológica do soldado e passou-lhe uma corda ao pescoço. Fradique tentou desvencilhar-se, mas a força de Pedro Alencar era deveras superior à sua. Após alguns minutos tentando derrubá-lo e livrar-se da corda, o soldado desfaleceu. Pedro então amarrou o corpo ao cavalo que se encontrava próximo dali, desferiu uma punhalada no animal e em seguida deu uma tapa em suas nádegas para que corresse em direção a estrebaria. O outro cavalo Pedro amarrou à árvore, fazendo nele um corte em toda a parte inferior do seu abdômen, deixando-o lá para sangrar até morrer.

Em seguida dirigiu-se para sua casa, não esquecendo de apagar seu rastro pelo caminho, e dormiu um sono tranqüilo, com a sensação de seu dever cumprido. A noite estava agradável para se dormir e ainda era cedo, o que lhe deu ainda boas horas de sono e descanso.

Saint Maria Douleurs, 14 de Nivoso de 1810

Um soldado corre pela neve desesperado. A expressão de horror transborda em seus olhos enquanto tresloucado cruza a cidade em direção a taverna. Ofegante ele cruza a porta principal, trazendo junto a si o hálito matinal do inverno francês. Os poucos que estavam no local àquela hora da manhã presenciaram com surpresa a entrada do soldado no recinto. Ele pára e tenta conter-se um pouco antes de dirigir-se ao taverneiro. Respira fundo e dá alguns passos na direção do balcão:

— Taverneiro, qual o quarto do capitão Piccard? – o soldado ainda estava pálido e as palavras saíam ainda sôfregas pela falta do fôlego.
— Bons dias soldado. O capitão e o sr d’Athos encontram-se no primeiro quarto à esquerda logo que subir as escadas. – o taverneiro tentava disfarçar sua curiosidade enquanto falava.
— Obrigado. – disse o soldado enquanto jogava uma moeda no balcão.

Subiu alguns degraus e bateu desesperadamente à porta do aposento. A porta era de madeira forte e possuía um gancho de metal que servia como campainha. O oficial andou de um lado para o outro no corredor e bateu novamente com o gancho. Esperou mais um pouco até que o capitão Piccard abriu uma fresta da porta.

— Capitão Piccard, desculpe incomodá-lo Sr! – disse o soldado energicamente enquanto fazia um gesto militar de respeito ao oficial superior.
— Sem problemas. Descansar. – Piccard responde ainda com voz sonolenta.
— Tivemos uma baixa em nossa comitiva. O oficial Fradique foi assassinado durante esta noite nos arredores da estrebaria.

Ao ouvir isso, Eleric Piccard surpreende-se. Como uma cidade tão pacata quanto afirmam os moradores poderia render um assassinato ainda na primeira noite da comitiva? Ele olha para o chão enquanto pensa no que poderia estar acontecendo com aquele vilarejo. Chega à conclusão de que o General Uiatté tinha razão em enviar uma comitiva tão numerosa para um lugar tão pequeno. Seus pensamentos são interrompidos pelo soldado:

— Capitão?
— Oh sim, reúna mais dez soldados e façam guarda na estrebaria procurando por pistas de quem poderia ter feito isso. E me diga, como ele foi assassinado?
— Foi estrangulado, senhor. Os dois cavalos também foram mortos.
— Vá na frente. Chegarei lá em vinte minutos.

Piccard fechou a porta e vestiu-se apressadamente. Olhou para d’Athos, que dormia na cama ao lado da sua, e pensou em acordá-lo, mas preferiu resolver o problema sozinho. Pegou sua casaca e saiu do quarto, descendo as escadas que davam para o salão principal da taverna. Alguns moradores e visitantes da cidade tomavam seu desjejum em mesas dispersas e o Sr. Leblanc encontrava-se no balcão conversando com o taverneiro. Adiantou-se logo em cumprimentar o capitão, que rapidamente se escusou da conversa e saiu da taverna.

O dia amanhecera agitado na cidade. Piccard pôde perceber um clima tenso no olhar dos moradores, que cabisbaixos murmuravam entre si. Deu de ombros e subindo em seu cavalo galopou até a estrebaria. No caminho um ou outro dava-lhe bom dia, mas a maioria parecia alheia, como se pressentisse algo nas nuvens ou na neve.

Não tardou muito até que o capitão chegasse à estrebaria. Alguns soldados procuravam por pistas que pudessem levar à solução do assassinato, mas até então sem sucesso. A cena que se mostrava ante os olhos de Eleric Piccard era grotesca: nos fundos da estrebaria a neve tinha um rastro de sangue como se o cavalo tivesse corrido desesperado até morrer. O corpo do oficial estava roxo e congelado. O outro cavalo encontrava-se amarrado à árvore com as vísceras à mostra. Uma grande poça de sangue manchava a neve ao seu redor.

— Capitão? – o oficial interrompeu os pensamentos de Piccard, que encontrava-se surpreendido por tamanha crueldade.
— Oficial, faça uma varredura no perímetro. Temos que descobrir o quanto antes quem é o responsável por isso.
— Sim, senhor!

Examinando os ferimentos dos cavalos e o modo como o soldado tinha sido estrangulado, Piccard percebe que quem quer que tenha executado o serviço é um profissional. E um profissional bem cruel. O capitão procura algumas pegadas na neve, mas aparentemente foram apagadas com cuidado. Estava ainda observando a cena do crime quando alguns soldados aproximam-se:

— Capitão, encontramos um corpo nos arredores do bosque.
— Um corpo?
— Sim, trata-se de uma mulher de seus vinte e três anos. Seu corpo estava lacerado de mordidas, e seu rosto completamente desfigurado. Estava enterrada sob a neve, apenas com o braço para fora.
— Mais uma... Perece que as coisas vão esquentar nos próximos dias.

E murmurando isso subiu novamente no cavalo em direção à cidade.
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O Mistério de Saint Maria - Parte X

Mensagempor Elara em 29 Mai 2008, 13:54

Desculpe pessoal,

Não postei na segunda-feira porque simplesmente... esqueci. XD

Chero!

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O Mistério de Saint Maria - Parte VIII


Lobo_Branco

Palácio Boulevard d’Athos, arredores de Paris, 25 de Janeiro, 1776

Uma porta range ao ser aberta, dando espaço para duas figuras adentrarem um luxuoso cômodo. Um velho com uma peruca de nobre e casaca azul, e uma jovem criança de aproximadamente oito anos, com culotes marrom, camisa de linho branca, cabelo num pequeno rabo de cavalo e sapatilhas sujas.

O velho pousa a mão sobre o ombro da criança, e esta como se treinada, fecha os olhos.

_ Bem minha criança, diga-me, o que há nesse recinto? _ a voz calma porem autoritária.

_ A cinco passos da porta em direção ao nordeste há uma cama larga, de em media um metro de altura. Suas cortinas estão meio arreadas, são feitas de seda indiana vermelha. A ponta da cortina do lado esquerdo está um pouco comida por traças. Sobre a cama há quatro, não, cinco travesseiros brancos, e a mesma está coberta com um lençol branco, com cavalos bordados em dourado.

_ Ao lado da cama há um criado-mudo e sobre ele existe uma estatueta de uma Vênus. A duas gavetas no criado, ambas fechadas. As prováveis chaves estão penduradas na cabeceira da cama, digo provável porque a primeira vista seus desenhos lembram o desenho das fechaduras. _ o jovem, ainda de olhos fechados toma ar, sua voz era carregada com um ar de medo. _ Na parede esquerda há duas espadas cruzadas sobre um escudo, que tem bordado sobre o coro o brasão da família. A poeira tirou o brilho das espadas, e o couro do escudo se encontra pálido e encardido.

_ Sobre a cama há um lustre de cristal com 32 entradas p/ velas, porem, apenas 19 estão ocupadas. Dele pende teias, o que mostra um certo deslize da governanta. Logo à frente da porta, existe uma varanda, porem meia cortina esconde o jardim, enquanto a outra cortina se encontra amarrada junto à parede. Elas são de um veludo vermelho, porem, este também já se encontra desbotado e com algumas pontas comidas. Em cima da cortina há um ninho, vazio, abaixo dele se encontra pequenos vestígios de casca dos ovos eclodidos.

O jovenzinho tomou ar, um leve sorriso foi esboçado em sua tenra face. Pela primeira vez tinha memorizado tantos detalhes, não seria repreendido, não desta vez.

O estalo da chibata contra as costas dele foi alto. A camisa rasgou e um filete de sangue jorrava de suas costas, marcada por outras feridas e cicatrizes similares.

A criança foi ao chão, lagrimas escorria de seus olhos, porem ele mordia os lábios para não emitir nenhum som.

_ Foi bom, por isso recebera apenas uma chibatada meu jovem Armand. Porém você deve sempre lembrar, para sobreviver deves gravar e perceber a tudo. O mundo deve ser uma tela em sua mente. Uma tela!

Palácio Boulevard d’Athos, arredores de Paris, 20 de Fevereiro, 1776

O velho anda pela sala de estudos. Ele circunda a mesa onde o jovem está sentado, em frente a dez cartas, aparentemente todas iguais. A sua postura ereta, segurando a chibata, olhando cada movimento da criança como um lobo olha os cordeiros.

O jovem Armand come as cartas com os olhos, analisando cada letra, cada linha. Ele as ler e reler, quase não pisca. As espalha, compara de duas em duas, três em três. Esse pequeno ritual se prolonga até ele as separar em três montes sucintos e manter uma na mão.

_ A única legitima é essa em minha mão, meu senhor. Eu as dividi em três porque elas, apesar de únicas, seguem três tipos de características marcantes das falsificações. As à minha direita apresentam um espaçamento levemente maior entre as letras e linhas. Alem de que os pingos e acentos sempre se mostram levemente inclinados para a esquerda. As da esquerda, se mostram corridas de mais, e escritas com força. Essas na minha frente, se mostram calmas, apáticas de mais. Ninguém escreve cartas de amor com toda essa calma.

_ Eu sei que essa é a verdadeira, porque a letra é leve, passional, porem assim como o conteúdo revela, o tolo apaixonado estava agoniadas com a situação, algo refletido na inclinação e proximidade das palavras, e algumas palavras são meio borradas, geralmente sentenças mais abaixo, na altura do punho de onde se revelam declarações mais difíceis de serem feitas por um homem orgulhoso. Está machado porque foram escritas sobre papel úmido de suor.

A criança olhou para o velho. Ele sorria, e se aproximava com passos lentos. Antes do terceiro passo, o jovem soltou um pequeno gritinho, erguendo as mãos.

_ Não me bata, eu acertei, eu acertei!

O velho sorriu mais uma vez.

_ E então minha raposinha, por que eu irei te bater?!

O jovem tremia, procurava uma razão, mas sabia que estava preste a ser castigado.

_ Seus olhos brilham, seu maxilar está contraído e a artéria em seu pescoço alterou levemente. Seus olhos caíram sobre meu ombro, está a mirar o lugar do castigo. Mas eu acertei meu senhor. Não devo ser castigado eu acertei!

O velho deu mais um passo, seu sorriso tinha virado um riso de jubilo.

_ Es ótimo meu querido. Aprendeu como ninguém nesses últimos três anos, mas ainda tem muito a aprender! _ a frase foi findada com o estalo da chibata, caindo sobre o ombro do rapazinho, o fazendo arrear sobre a mesa, manchando levemente a mesma com seu sangue. Mais uma vez ele morde os lábios até ferir, emudecendo seu choro.

_ Me deu uma informação baseada numa suposição, uma imaginação sua. Na carta não há nenhuma pista que faz do homem um homem orgulhoso.

Com choro na voz, em um esforço sobre humano o pequeno Armand solta um sussurro:

_ Há sim meu senhor. Ele assinou abaixo do recomendado, fugindo de um lugar úmido, de uma assinatura borrada. Seu nome é limpo e legível, ele se orgulha de quem é. È um homem orgulhoso!

O velho sorri, olhando a carta. Ele afana a cabeça do rapaz e lhe entrega a chibata.

_ Sou eu que mereço a chibatada meu jovem. Bata e depois pegue suas duas moedas de ouro. Foi perfeito.

O garoto encara a chibata e a deixa sobre a mesa. Com um abraço e não uma pancada ele corresponde ao seu tutor.

O velho surpreende-se, e o afeto é bem recebido de inicio, sendo concluído com um forte apertão na ferida recém feita.

_ Você me orgulha apenas para me decepcionar meu caro. Não deves se mostrar afetuoso com aqueles que lhe são perigosos. Não afeto de verdade, isso mostra uma fraqueza sua. Recomponha-se e suma de minha frente até o resto do dia!

Armand saiu da sala de estudos correndo, enquanto o velho sentado na poltrona ria e derramava furtivas lagrimas.

_ Ele está crescendo velho, e te odiará se não deixar de ser rabugento. Ha ha ha!

Palácio Boulevard d’Athos, arredores de Paris, 19 de Junho, 1785

Noite chuvosa e com uma espessa neblina. Duas figuras se encontram no pátio do palácio, um velho curvado, com uma capa fechada sobre si, tentando se proteger do frio, e um jovem de olhar astuto, apenas de culotes. Seu corpo ostenta cicatrizes de antigos castigos.

À frente deles se encontram quatro corpos inertes, deitados e frios. Duas mulheres e dois homens.

O jovem se aproxima deles, com um ar de despreocupado. Seu sorriso cínico e seus passos despreocupados incitam a ira do velho tutor. Ele para próximo aos corpos, tirando uma pequena navalha presa a sua calça, e começa a girá-la, brincando.

_ Sabe meu senhor, esse teste está deveras complicado. Meu sucesso deveria me garantir uma boa premiação, não concordas?

_ Terás uma ótima premiação, proporcional ao castigo que te esperas caso falhes meu garoto.

O jovem parou ao lado de cada corpo, verificando suas arcarias dentarias, seus membros e a rigidez dos mortos.

_ Bem os dois homens têm por volta dos trinta anos, sendo todos os dois trabalhadores braçais. Uma das mulheres tem em torno de 50 anos, e apresenta inchaço nos pés e joelhos, de certo ela é uma lavadeira e andava muito durante o dia. A outra moça deve ter seus 15 anos, uma belezura. Sua pele é lisa e seus dentes bem tratados. E ela é apenas uma donzelinha ainda _ afirmação vê, acompanhada do ato de enfiar os dedos no sexo do jovem cadáver _ Sabe velho, às vezes eu acredito que tu és um puto.

Armand se ergue, sorrindo, cheirando a mão a qual ele checou a virgindade da moça. Com um sorriso ele rasga as roupas dela, manuseando com precisão cirúrgica a navalha, a livrando de todos os panos molhados que a cobriam. Seus dedos hábeis dançam sobre o corpo da rapariga, pressionando, beliscando. Ele a vira, a analisa de todas as formas. Cheira sua boca, checa seus olhos, faz pequenos cortes por seu corpo.

_ Uma morte tranqüila, foi envenenada. Provavelmente morreu em meio a um sono tranqüilo, depois de um dia de indisposição.

Ele ergue-se, indo analisar outro corpo, repetindo o mesmo processo em cada um. Lendo a morte impregnada em cada corpo, deduzindo as formas e o tempo que demorou a a vida deixá-los. Suas afirmações são acompanhadas de um sorriso de satisfação do velho.

Ao fim da tarde, com a chuva já extinta, Armand se encontrava sentado na escadaria, observando os corpos largados ali, brincando com uma moeda de ouro, moeda esta que sempre estava com ele, seu primeiro acerto.

_ Sua evolução foi incrível rapazote, doze anos de intenso treino, e hoje creio que és o mais atento e perceptível nobre de toda a França. Sois capaz de contornar e prever cada maquinação contra vossa pessoa. Deves se manter longe dos vícios e vicissitudes que essa vida acarreta, e então manterá-se-a sempre no controle de todas as situações. _ disse com orgulho o velho, que trazia vinho para ambos.

Armand pegou o vinho, e o cheirou, umedecendo os lábios em seguida.

_ Da nossa safra nos vinhedos do sul. A mesma idade que tem o meu “treinamento”.

_ Suas habilidades refletem até mesmo como um ótimo enologo. _ riu o velho.

Palácio de Versalhes, corte Parisiense, 26 de dezembro, 1786

Armand acabava de acordar, estava num dos muitos quartos do palácio da corte, ao seu lado estava uma velha baronesa de 50 anos e uma jovem empregadinha. Ele nunca tinha se divertido tanto quanto no baile da noite passada. E se divertira mais ainda nos joguetes que fez a noite com a baronesa e a empregadinha.

Dominará todas as conversas, descobrira todas as mentiras, revelará todos os medos superficiais das pessoas. Conquistar uma velha e convencê-la a trair o marido era fácil. Seduzi-la para que lhe fosse doado o seu belo colar também não fora tão difícil.

Ele saia do quarto satisfeito, uma garrafa de vinho na mão, segurando as calças na outra, as outras peças de roupa estavam em seu ombro. Com uma surpresa ele viu seu tutor na frente de sua porta com uma cara não muito amigável.

_ Espero que tenha aproveitado sua festa noturna. Deverias ser punido, apesar de ter conseguido tudo que eu mandei você fazer, não tinha dado-lhe autorização para desfrutar da senhora de Mersailhes.

Armand apenas deu de ombro, lhe passando o vinho.

_Bem tenho uma ultima missão senhor Armand. Ouve um assassinato brutal nessa noite e você tem até a virada do ano para revelar o verdadeiro culpado dessas maquinações da corte. Caso contrario, eu colocarei você como o assassino. Boa sorte meu garoto. _ com uma leve vênia e um sorriso sádico o velho retirou-se pelo imenso e luxuoso corredor do maior palácio da Europa.

Canal da Mancha, Ilha de Guernesey, 10 de Temidor (27 de Agosto) de 1793

Sentado num bar, no porto, se encontra alguns marinheiros e no canto, um velho barbudo e desleixado conversa com um jovem oficial francês. O rapaz é de uma beleza felina, analisando o velho a sua frente enquanto enrola levemente seu bigode.

_ Como eu ia dizendo meu bom Menug-sur-Loire, há sete anos atrás eu estava investigando um assassinato que houve na corte. Naquela época a corte ainda regia nosso belo país. Minha pesquisa revelou uma bela intriga, com a alta nobreza e alguns burgueses, envolvendo agiotagem, adultérios, seqüestros, estupros e tudo o mais que pode encher os ouvidos numa estória, no fim daria um belo folhetim romântico. _ dando um trago no vinho de segunda, sem tirar os olhos do velho a sua frente, Armand deixou a mão cair sobre a pistola que estava sobre a mesa.

_ O mais triste de tudo, foi que aquilo culminou na possível incriminação de meu tutor. Era um velho rigoroso, porem um grande homem, devo a ele tudo o que sou hoje. Bem eu como um bom filho não podia traí-lo, e forjei provas para a culpa cair sobre um burguês, e adivinha, ao invés do meu tutor me agradecer, me parabenizar, ele me mandou para Paris. No fim eu aprendi muito por lá, e conheci boas pessoas que me mostraram muito do mundo que meu tutor não fez. No fim, devo a ele até mesmo meu cargo como investigador a serviço do governo. Irônico não, eu dever meu alto cargo na Republica a um nobre.

Armand sorria, enquanto degustava seu vinho. O velho sorria sempre concordando com o que ele dizia, também bebendo do vinho.

_ Então, a cá estou eu, procurando por um traidor da revolução, um ladrãozinho barato, e a quem minhas investigações levam?! Ao meu velho tutor, veja se a sorte não sorrir para minha pessoa? _ Armand termina seu copo, encarando o velho maltrapilho_ E então meu querido Menug-sur-Loire, o que achas que devo fazer? Entregá-lo as autoridades, como ele acredita que eu deveria ter feito no passado, ou deixar minhas emoções falarem mais alto e mais uma vez deixá-lo fugir?

O velho encarou Armand, seus olhos lacrimejaram, e ele tentou dissimular seu olhar que pedia clemência.

_ Deves fazer o que crêes que seja o melhor, meu garoto.

_É bom saber que concordas comigo meu senhor. Sabe, se ele apenas fosse um nobre, se apenas quisesse fugir para a Inglaterra, mas ele teve que roubar documentos e planos, que podem ameaçar nossa Republica. Ele ameaçou tudo o que eu acredito, e isso está acima de mim e de meu amor por ele. Por isso eu peço que me perdoe Gilliat, mas fique tranqüilo, sua morte será indolor, graças a você eu aprendi a manusear bons venenos, e graças a sua idade você não o percebeu em seu vinho. Poderás fugir para a Inglaterra, mas preferiria que morresse em solo francês.

Armand levantou, colocando a pistola na cintura mais uma vez. Seus passos firmes o levavam a saída, quando ele parou.

_ E não se preocupe, nossa família não morrerás, apesar de não termos o mesmo sangue, eu continuarei portando nosso nome.

Saint Maria de Douleurs, 14 de Nivoso de 1810

_Devem se preparar homens, vasculharemos todas as casa atrás do culpado. _ gritava o capitão Piccard _ Coloque em ferros todos os suspeitos!

Armand chegava a galope, cedo o suficiente para pegar a ultima sentença sendo gritada da boca do jovem capitão. Ele via os soldados começarem a se mobilizar, muitos seriam pegos naquele dia, muitos mortos, mas dificilmente o suspeito.

Armand riu consigo mesmo ao ver a sede de vingança que tomava o corpo militar.

_ Com certeza colocará a ferros o criminoso, ou o fará correr como um cordeiro da cidade. Mas levará tempo meu jovem capitão, e inegavelmente atrapalhará a nossa verdadeira investigação aqui. _ sorriu Armand, se aproximando do serio Eleric.

_ Como atrapalhará nossa verdadeira investigação?! Com toda a certeza Senhor d’Athos, o mesmo crápula que matou Fradique é o responsável pelo sumiço das mulheres!

_ Eu acho deveras difícil meu caro Piccard. Ele pode ter sido até mesmo o responsável pela morte do filho do prefeito, mas há não ser que ele seja um grande atleta, e goste de subitamente mudar seus hábitos criminosos, ele matou o seu bom soldado. _ Armand caminhava pela região, analisando casa passo seu, cada detalhe de tudo aquilo _ Não sei se já te é sabido, mas encontraram mais um corpo.

_ Sim, me informaram há pouco. _ disse o ainda irritado Piccard.

_ E a distância que ele foi encontrado é a quase uma hora de cavalo daqui, por causa da neve. Então nosso sabotador não pode ter matado a jovem. Claro que há a possibilidade dela estar morta a mais tempo, mas como estamos aqui para resolver isso e todos conhecem nosso propósito, se ela tivesse sumido antes, algum pai ou marido preocupado teria nos avisado. _ disse o investigador, enquanto ascendia seu cachimbo _ Então meu jovem capitão, eu gostaria de que desse as ordens necessárias para seus homens e me acompanhe até onde o corpo da jovem está. Depois eu prometo-lhe checar essa área, então mantenha seus homens longe dela. E os corpos intactos.

_ E o que sugere que eu faça meu bom d’Athos?_ disse Eleric enquanto preparava sua montaria.

_ Apenas mande os soldados manterem tudo como está, enfie os corpos na neve, ficarão preservados. Depois os mande notificar na cidade que temos um pronunciamento importante a fazer. Nosso sabotador cairá em uma pequena armadilha.

Logo ambos estavam cavalgando a galope em direção de uma fazenda próxima a mina de ferro.

Fazenda Saint Louis, 14 de Nivoso de 1810

Por duas horas Armand examinou o corpo da jovem. Ela tinha sumido na mesma noite. Segundo relatos do pai, seu estábulo fora atacado, todas as galinhas mortas, juntamente com uma das duas vacas. Quando ele voltou de examinar o estábulo sua filha tinha sumido do quarto, a porta aberta.

O corpo tinha sido comido, varias partes estavam mordidas, outras mastigadas. Encontrava-se um pelo negro e grosso embaixo das mãos da garota, e cortes que Armand jurava ser de garras, pois estavam disformes e forçosas de mais para serem feitas por qualquer lamina, até mesmo cega. Alem de serem próximos de mais, quase a mesma proximidade entre os dedos da pegada de lobo que ele encontrara na casa do senhor d’Anjou. O mais estranho era que os olhos da garota estavam faltando, mas não tinha nenhuma marca ou ferimento próximo aos mesmos.

_ Como eu lhe disse, meu caro Piccard, as mortes não seguem o mesmo padrão. E creio, nosso assassino tem um cão, talvez um lobo, pelo tamanho.

Saint Maria de Douleurs, 14 de Nivoso de 1810

Loup-Marrie conseguira chegar em casa sem ser visto por ninguém. Sempre teve hábitos furtivos e gatunos, e no inverno nos Pirineus poucos ficavam fora do calor de suas casas e ofícios.

Entrou sem ser visto pelo pai, e se manteve a manhã toda, ou o que sobrara dela, na cama. Alegara sofrer de febre e se melhorasse iria para a oficina.

Seu pesadelo o atormentava, sempre que adormecia acordava num sobressalto, mais cansado do que antes de adormecer. O gosto ferroso não saia de sua garganta e por mais de uma vez ele vomitou. Ao fim do dia, com o sol já a se pôr, ele conseguiu adormecer de forma tranqüila, mas logo foi acordado com um arranhar no chão próximo a sua cama.

No canto mais escuro de seu quarto ele pode identificar um par de olhos vermelhos, brilhando na escuridão. Demorou a ele perceber que ali estava um enorme cão negro, o mesmo que o persegui desde a infância.

Loup se encolheu e tentou gritar, mas a voz não conseguia sair de sua garganta. Ao lado do lobo, agora, havia uma velha de olhos fundos e pele esquálida, vestindo enormes trapos que lembravam uma mortalha. Ele balbuciava algo em uma língua desconhecida, parecido com algo que Joannah falava com os seus.

Num repente ela rasgou parte de sua vestimenta, colocando seu deformado seio para as vistas, e começou a amamentar o lobo. Um leite viscoso e amarelado escorria pelas mandíbulas do animal enquanto ele sugava violentamente o seio da mulher. Ela ria e gemia a cada instante, se arrastando para próximo do tremido Loup-Marrie.

Foi com um puxão forte, mais forte do que o possível para uma mulher de sua idade e condições seria possível de dar, que a mulher colocou a face do jovem contra o outro seio dela. O cheiro do animal, da velha e do liquido que escorria encheram Loup-Marrie de uma ânsia de vômito tremenda, porem a velha o forçava a sugar seus seio e amamentar daquele liquido pútrido.

Numa tentativa desesperada Loup afastou-se da velha, esforço que resultou em sua queda da cama. No chão, ao abrir os olhos, ele virou e vomitou mais uma vez, mesmo seu estomago estando vazio. Com olhos lacrimejando ele olhou pelo quarto e nenhum ser vivente alem dele havia ali.

_ Meu Deus, proteja-me desse mal. Se esses pesadelos continuarem, eu enlouquecerei!

Praça da Câmera Municipal, Saint Maria de Douleurs, 14 de Nivoso de 1810

A noite já avançava, porém ao invés das pessoas irem para o abrigo de seus lares, se amontoavam em frente à prefeitura. O capitão Piccard havia marcado uma assembléia, um notificado de suma importância iria ser feito, e todos eles precisavam saber do que se tratava. Rezavam para que o culpado dos assassinatos tivesse sido pego.

Do alto de um palanque improvisado, em frente à multidão atenta, estava d’Athos e Piccard a observar a tudo e todos.

_ Muitas boas noites meus caros. _ disse Armand com uma voz encantadora, capaz de conquistar até mesmo um inimigo _ Estou a cá para fazer um pronunciamento deveras triste e preocupante. Temos em meio à tão boa gente, tão adoráveis patriotas um dissimulado traidor. Uma víbora que ataca os franceses, nos matando e amedrontando, nos tornando frágeis e controláveis. Essa noite, essa maldita víbora fez mais duas vitimas de suas maquinações. Um jovem e inocente senhorita e um valente e valoroso soldado. Soldado este enviado para cá com o único intuito de proteger vossas senhorias.

_ Somos novos e incapazes, ainda, de avistar essas víboras, pois elas se escondem entre vocês, em seus lares. Por isso estou a cá, estou a pedir a vossa ajuda. È de suma importância que apontem o traidor, para então o nosso valoroso exercito de cabo dela. De certo é um homem robusto, e aposto que seja estrangeiro ou tenha influências estrangeiras.

_ Digo que se trata de um estrangeiro, pois, me faço incrédulo, que democratas como nós, um povo evoluído que pós abaixo as amarras da aristocracia, a nação produtora dos maiores filósofos e homens, a primeira grande republica da Europa, quiçá do mundo, seja capaz de trair nós mesmos. Isso seria negar todo o sangue já derramado na revolução, isso seria negar o nosso desejo no plebiscito, onde colocamos Napoleão no poder, seria negar a grandiosidade do Império Francês.

_ Peço-vos que atendam a suplica desse velho homem, que lutou desde o inicio da Revolução, não se deixem enganar pelo linguajar doce e promessas de liberdade desse traidor. Lembrem-se de como eram nossas vidas com o domínio dos Borbons. Éramos escravos da terra, produzíamos para alimentar seus exageros enquanto nossos filhos morriam de fome e frio. Aviso-vos, aqueles que estiver ajudando o traidor de Império, está ajudando a volta da opressão da igreja e da aristocracia, está trabalhando para a volta da miséria e dividas da nossa fabulosa nação.

_ Eu tenho aqui comigo, uma carta de recomendação do nosso grandioso Imperador, me dando plenos poderes para punir os traidores, porem ele pede para ser dócil e carinhoso com seus conterrâneos do império francês. Pois, em palavras de Bonaparte nesta carta, “um grande chefe deve se ver como um pai, e seu povo como seus filhos. Devemos proteger e guiar nossos filhos, utilizando plenas forças para isso. Mas nunca devemos voltar por cegueira, essa força contra eles, pos se erram é por ignorância, e é nosso dever mostrá-los a luz e ajudá-los a diferenciar o joio do trigo.”

_Mais uma vez eu peço vossa ajuda povo de Saint Maria, não se deixem enganar por ingleses, espanhóis, russos, ou seja mais que nação se ponha contra nosso crescimento. Como uma forma de boa fé, e para sobrepujar qualquer represália que o traidor possa ter contra vocês, pois eles podem ser patrões, esposas, maridos, pais, estou a cá, disponibilizando uma carta no valor de cem francos, alem de alojamento até o fim da crise na bela Paris, próximo no palácio de Tolherias, sobre a tutela direta do nosso imperador. Lembrem-se, vocês não estarão traindo ninguém, pois aqueles que pedem seu silencio e apoio está traindo tudo que somos e tudo pelo o que lutamos desde 1789. Mais uma vez muito boas noites e obrigado, estarei esperando o apoio de vossas senhorias o mais breve possível. O senhor LeBlainc lerá a carta para vossas pessoas, e espero que elas lhe toquem, tão profundamente como me tocou.

Após o discurso inflamado de Armand, ele se retirou juntamente com Piccard. Até mesmo o capitão se emocionara e se encontrava surpreso com a importância que sua missão tinha, o próprio Bonaparte estava olhando pelo bem deles.

Já longe dos balbucios da multidão, cavalgando para a taverna onde estavam alojados, Eleric não agüentou a emoção:

_Incrível senhor d’Athos, simplesmente incrível! Não só seu discurso conseguirá acordar nosso senso patriótico como nos mostrou a importância que nosso bom imperador tem com todos nós. Acredito que logo resolveremos isso, pois o povo agora está conosco.

_ Sim, logo pegaremos os suspeitos de traição, em meio a muitos inocentes, mas com facilidade eu saberei diferenciá-los, pois, venho fazendo isso desde o cinco anos de idade. Sou praticamente infalível, e minhas ratoeiras tendem a pegar os ratos. _ disse sorrindo Armand de Sellègue d’Athos _ Mas não se sintas tão pressionado, a carta é falsa, eu a escrevi, mas creio que até o próprio Napoleão se confundiria com ela, até seu selo se encontra nela, então não há o menor risco de sermos pegos e termos nossa confiabilidade abalada. Vamos meu bom rapaz, tomaremos um bom vinho e esperamos o resultado de nossa jogada.
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O Mistério de Saint Maria - Parte X

Mensagempor Elara em 02 Jun 2008, 14:10

O capítulo que será postado na quinta-feira é o último dos escritos. E então, estará aberta uma nova fase de produção. =)

Chero!

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O Mistério de Saint Maria - Parte IX

Beholder_Vesgo


Cidade de Saint Maria de Douleurs, tarde da noite de 14 de Nivoso de 1810

Segundo a falha percepção do velho Hermann, a noite já ia alta quando arranjou forças para levantar-se da cadeira onde passara quase o dia todo. Estava preocupado com seu filho, que passara o dia inteiro no quarto, sob a desculpa de estar ardendo em febre.

Dois homens doentes em uma casa formam uma situação nada agradável. Hermann Rochambeau, velho, impossibilitado de mover-se muito, não podia cuidar do filho, Loup-Marrie Rochambeau Second, que, por sua vez, devido à febre, não podia cuidar do velho pai. Se algo acontecesse, seria uma tragédia.

E ainda havia o agravante da besta que andava atacando as pessoas do povoado. Uma vez que era praticamente um recluso em sua velhice, as informações não lhe chegavam muito rápido aos ouvidos. E seu filho sempre tivera o cuidado de filtrar bem as notícias mais aterradoras, visto que o coração do velho era fraco. Mas falavam de um lobo...

Malditos lobos! O tempo havia passado de tal forma que Hermann mal lembrava o porquê odiava tanto lobos. Mas os odiava, quase tanto quanto odiava ciganos.

Andando pelo corredor estreito, mal iluminado e incomodamente silencioso, tinha um mau pressentimento. Teve medo de que se batesse na porta, seu filho não respondesse. Arriscou, ainda assim.

- Loup-Marrie, abra! Preciso ver como está! – A voz saia áspera, um tanto pelo seu tom natural, mas em grande parte pela garganta apertada.

O silêncio foi a resposta. Com os ouvidos mais atentos, percebeu um arfar constante, como se alguém que corresse até os pulmões quase estourarem agora tentasse respirar. O estado do rapaz deveria ser horrível.

Tentou a maçaneta e descobriu-a aberta. Empurrou a porta, e um debilitado facho de luz adentrou o quarto, ignorado pela escuridão que reinava. Apenas o arfar preocupante se fazia perceptível.

O velho tentou fazer com que a luz da vela que trazia revelasse o quarto. Quando a fraca luminescência deu cor a imagem, o pai percebeu o filho encolhido no chão, com as mãos por sobre a cabeça, pulsando dolorosamente.

Mais que a imagem do rapaz, a luz formou a sombra. E esta era bestial.

Cidade de Saint Maria de Douleurs, 14 de Nivoso de 1810

- Aposto que não esperava que as coisas ocorressem tão rápido, não é, meu rapaz? – Armand sorveu um longo gole de vinho e sentou-se na cama. Sentiu o gosto amargo do líquido na boca e engoliu-o com calma. – Ótima safra, o frio dessas regiões faz um bem incrível as uvas...

O copo do capitão Piccard encontrava-se descansando sobre o criado mudo, enquanto Eleric encarava as paredes.

- Como pode manter-se tão tranqüilo, senhor? Desculpe-me, mas não consigo entendê-lo.

- Meu bom capitão, se não me mantivesse tranqüilo, que tipo de investigador seria? Analisar e concluir são tarefas que não devem ser prejudicadas pelo nervosismo. – Ria-se por dentro d’Athos ao lembrar o quão doloroso lhe fora aprender essa lição. – Mas, diga-me, meu jovem, encontraste algo no roseiral? Não tivemos mais tempo de tocar no assunto.

A mão de Eleric se fechou em torno do copo, mas não o levou a boca. Deu alguns passos sem direção pelo quarto, tentando concentrar-se na pergunta de d’Athos e relembrar-se da noite anterior.

- Acho que minha verificação lá foi muito infrutífera, senhor. Não encontrei nada que tu não tivesses já observado, e nem um fio do vestido vermelho. Quase tive de me identificar aos criados do prefeito. Não é nada fácil agir gatunamente com uma lanterna nas mãos, você sabe.

Armand deixou seu riso correr. O jovem capitão bebeu alguns goles de vinho e continuou:

- Espero que o senhor tenha tido mais sorte falando com o representante do banco.

- De fato, tive. O homem foi muito solícito em ajudar-nos, respondeu a cada questão, e não duvidei de sua veracidade. Mas com certeza ele não é mais que um grande canalha. – Bebeu o resto da bebida que manchava seu copo e tomou da garrafa para servir-se de mais. – Esperto, isso sim, mas ainda um grande canalha. Lembra-se que lhe disse que talvez descobríssemos um caso de adultério? Pois bem, se não estou errado... e há! É claro que não estou errado! – fez uma pausa, analisando a expressão do jovem a sua frente, meio perplexo – Esse Apollinaire também desconfia da mulher!

- O homem lhe disse isso?

- Não, não! Mas a forma como tentava dirigir a conversa, a raiva contida que guarda do prefeito, o leve tom de amargura que carregava a voz sempre que tocava no nome da esposa, a expansão dos olhos sempre que eu fazia um comentário mais pungente... Estes traços me disseram isso.

- Senhor, tua percepção me assombra! Mas, o que pôde descobrir com isso?

- A conversa com ele não me trouxe muitas informações. Reparei quando cheguei lá que ele possui um cão imenso, mas com certeza não pesado o suficiente para deixar marcas como aquelas que encontramos no roseiral... e, de qualquer forma, não imagino que ele saiba qualquer coisa sobre os desaparecimentos.

- Não conseguiu nenhuma informação quanto ao local do desaparecimento de Hanya Castella?

- Segundo o homem, sua senhora havia ido à casa de uma amiga enferma durante a tarde do dia 12. O senhor Castella disse que segundo esta mulher ela saiu de sua casa ao cair da noite, e desde então não foi mais vista.

- Não me parece de muita ajuda, senhor.

- Nem a mim, mas esse me parece o único ponto da conversa onde talvez ele não tenha sido totalmente sincero...

Estrebaria Menarien, 14 de Nivoso de 1810

A luz da vela mal iluminava o quarto, e, como de costume, Francis ficava observando o teto até pegar no sono. Mas, esta noite, seria difícil pregar os olhos.

Virou-se na cama novamente. Fitava a porta do quarto. Estava incomodado. A presença de tantos soldados não podia ser boa. Com certeza, não o era para o subversivo Menarien.

Era verdade que o senhor Jonas Menarien havia respondido serenamente tudo que os soldados lhe perguntaram, e que fora o próprio que oferecera pouso para os que não estivessem de guarda durante a noite. Mas Francis não podia deixar de se preocupar com o homem que o tratara como filho a vida inteira. O fato de haver um cadáver enterrado na neve nas proximidades também não lhe agradava.

Ergueu o corpo e sentou-se na cama. Mesmo protegido pelas paredes da casa, o frio fazia sua cabeça latejar. Olhou para o chão e começou a pensar. Dos cinqüenta soldados que chegaram na comitiva, oito se encontravam nos arredores da estrebaria, divididos entre os que dormiam, os que faziam guarda e o morto. Por mais que não estivessem procurando nada na estrebaria em si, a chance de encontrarem alguma ligação de Menarien com os conspiradores não era baixa. Francis era o responsável de enviar as mensagens de Jonas para a cidade, e não uma vez encontrou um rascunho de mensagem cifrada junto aos papéis do balcão.

Por vezes, Francis não sabia se era descuido ou se Menarien desejava secretamente ser descoberto.

Levantou-se e andou até o criado-mudo que havia a um canto do quarto. Abriu a gaveta de madeira e de dentro tirou um baralho. Voltou a cama e começou uma paciência, sabendo que seria uma longa noite sem sono. Estranhamente, todas as cartas que começaram viradas para cima eram de espadas.

Cemitério da Família d’Lambert, 14 de nivoso de 1810

O forte vento assoviava entre os túmulos e estátuas. Nem o vento e nem o risco de ser visto pelos soldados que patrulhavam uma ou outra área próxima da cidade impediram o vulto que se encontrava parado na frente de uma tumba de aqui voltar.

Parado diante de um jazigo, era possível ver que apenas a capa balançando ao vento movia-se na figura estática. A cena seguiu-se assim por mais alguns minutos, até que o sujeito abaixou-se e largou uma corrente, com uma das pontas formando um laço, ao chão. A outra ponta ele amarrou em seu tornozelo. Levantou-se carregando um pouco de neve na mão, e contra o vento disse:

- Eu vim te pedir ajuda, e agora volto para agradecer!

Deixou um pouco de neve cair no círculo formado pela corrente, embora a maior parte dela fosse carregada para longe pelo forte vento sibilante.

De dentro das vestes, retirou um punhal e rasgou levemente a palma de sua mão esquerda com ele, deixando seu sangue pingar no interior do círculo. Mesmo com a luz insuficiente da lanterna ao lado, era quase imperceptível o avermelhamento da neve naquela escuridão. O frio fazia a ferida recém aberta queimar enquanto gotejava.

- Dou-te o sangue de dois povos, de nômades e de nobres. Bebe-o em comemoração a minha vingança!

Afrouxou a mão até que o punhal caiu na neve. Ainda com a palma esquerda voltada para baixo, sobre a corrente, puxou de dentro da capa um baralho fino. Vinte e duas cartas, os Segredos Maiores.

Tentou separar apenas a carta superior, quando reparou que não era ela a carta que estava procurando. A primeira carta do baralho era a Roda da Fortuna, não a Morte.

Recolheu a mão esquerda e com a ajuda dela retirou a Morte do meio do baralho. Quando fez isto, uma outra carta foi levada pelo vento, embora o mestiço não tivesse atentado para isto. Colocou a morte no centro do círculo formado pela corrente, meio enterrada, e voltou a despejar o próprio sangue sobre ela.

- Bebe que teu serviço foi feito, Ankou. Bebe que por hora não mais tenho a requisitar-te. Descansa por hora, que logo serás chamado novamente. Um a um, aqueles que fizeram aos meus sofrer sentirão teu toque gélido.

Por hora, só o vento soube, mas mais tarde, quando o estranho consultasse as cartas, perceberia a ausência da Sacerdotisa.

Cidade de Saint Maria de Douleurs, 14 de Nivoso de 1810

O capitão olhava para Armand com um misto de admiração e de repugnância. Desagradava-lhe a frieza com que o investigador tratava os fatos, e sobretudo a arrogância dele. Mas não podia deixar de achá-lo um ser fascinante, e invejar a mente aguda que o homem mais velho possuía.

E agora, o senhor d’Athos tirara uma moeda do casaco e passara a jogá-la para cima. Eleric pegou a jarra e serviu o remanescente do vinho em seu copo.

- E quanto aos fatos de hoje, senhor, o que podes me dizer? O que sabemos do corpo da garota e dos rastros encontrados com ela? E quanto ao meu soldado? – Piccard quebrou o silêncio, repentinamente.

- No mínimo que não são trabalho de um mesmo homem. Isso a distância e o modo como ambos os “serviços” foram executados nos dizem. E, além do mais, o assassino da garota é muito mais espalhafatoso que o sutil demônio que atacou o seu soldado.

- Sim, mas ambos demonstraram uma crueldade extrema!

- Com certeza. Mas você viu que o vigia foi atacado em um momento oportuno, estava despreparado. Também, tanto a punhalada como o corte nos cavalos tiveram uma precisão cirúrgica. Quem quer que tenha feito, sabia o que fazia. Talvez soubesse o tempo que cada um levaria a morrer. Já no caso da garota, o caso é muito mais macabro.

- Ela nem parece ter sido atacada por um homem, e sim por uma fera selvagem.

- O que nos faz voltar à teoria de que alguém tem um cão com péssimos hábitos alimentares. – Armand pegou a moeda e pôs-se a caminhar tendo ela a frente dos olhos – De alguma forma, o assassino imobilizou a garota para que seu cão, ou o que quer que seja, se alimentasse dela. A princípio, achei que o matador tivesse envenenado a vítima para tirar-lhe a reação, mas meu exame não revelou nenhuma das substâncias incapacitantes que conheço. Talvez ele mesmo a tenha segurado, não duvido que alguém capaz de uma atrocidade dessas não tenha o sangue frio necessário para imobilizar a vítima enquanto a fera a devora, mas não encontrei nem hematomas como marcas de pressão e nem pedaços da roupa do atacante.

- Mas, e os fiapos no espinheiro?

- Me referia a resquícios na vítima. Mas, é verdade, nos arredores temos muitos sinais deixados pelo assassino. Até pegadas que voltam a vila! Não é possível que alguém seja tão profissional – veja o que fez com os olhos da coitada - e tão inexperiente ao mesmo tempo!

Eleric Piccard observava o homem que observava a moeda. Agradecia que assim fosse. Eleric já havia percebido que sempre que Armand deitava os olhos sobre alguém, estava lendo as entranhas e humores da pessoa, e não se sentia nada bem em ser sondado.

- E isso é bom ou ruim, senhor?

- Nem um, nem outro, capitão. É simplesmente aterrador.

Cidade de Saint Maria de Douleurs, 14 de nivoso de 1810

Uma breve eternidade se passou desde que ouvira a porta se abrir. Já não sentia enjôo, tontura, e, praticamente, nem medo e confusão. Não podia precisar, mas achava que sua melhora havia ocorrido num intervalo de apenas um instante.

Os pulmões de Loup-Marrie abriram-se com gosto e deram boas-vindas a lufada de ar que o invadiu. Como era bom respirar após todo aquele tempo em que só sentia a queimação e o forçar do peito. Reparou que o gosto amargo do vômito deu lugar a um outro gosto, que já sentira antes e lhe dera ânsias, mas que agora não lhe incomodava... Até lhe agradava...

Levantou os olhos e viu seu pai aterrorizado, parado diante da porta. Pôde ouvir o coração do velho, como o trotar de um cavalo irrompendo de seu peito. De repente, o olhar de terror de Hermann se transfigurou em um de alívio.

- Filho, está tudo bem? Meu querido, por um momento, achei que uma fera te oprimia. A febre aumentou?

Loup-Marrie levantou-se, sentiu-se seguro em pé. Estranho, parecia de alguma forma liberto. De onde saíra toda a sensação anterior?

- Está tudo bem, pai. A febre passou.

O doente desta casa era o velho. Hermann Rochambeau, ex-capitão franco-loreno, hoje apenas um velho doente adentrando o triste caminho da senilidade. Olhando nos olhos do pai, Loup-Marrie sentiu pena. Aquilo que agora se apresentava como um frangalho de gente, já fora seu tutor, seu protetor.
- Pai, está tudo bem? Acho que é melhor tu voltares para a cama. Vem, te levo. – O jovem alfaiate passou seu braço pelas costas do velho ex-capitão, com o intuito de conduzí-lo até o outro quarto.

Porém, a claridade da vela iluminou algo e o ancião se desvencilhou dos braços do alfaiate. Deu dois passos a frente, invadindo a penumbra que era o aposento de seu filho. Como que invocado por algo, parou a frente de uma estante. Tomou uma lâmina de papel que ali havia e aproximou-a dos olhos, perplexo e confuso.

Loup-Marrie podia ver que seu pai não entendia como uma carta de Tarot, o livro maldito dos ciganos, se encontrava ali.
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O Mistério de Saint Maria - Parte X

Mensagempor laharra em 04 Jun 2008, 01:41

Ainda não li a parte IX, mas a VIII realmente foi muito boa. Roubou a cena até aqui. Pelo fato de ter sido a melhor, merecia uma revisão porque tem uns erros feios de gramática - detalhe que não pude deixar de citar.

Espero que Armand cresça cada vez mais na história. Ele agora se tornou um personagem bem mais interessante depois que sabemos um pouco do seu passado.

Sugiro também fazer uma sinopse dos capítulos, mais ou menos como estou fazendo no meu conto O Som do Silêncio, para o pessoal poder consultar enquanto as partes novas não vêm. Quando sair a parte X eu leio ela e a IX de uma vez.

Abraços, galera :cool:
Tentando encontrar inspiração para terminar o conto abaixo:
O Som do Silêncio: Parte IV - A decisão
Reger está às vésperas de uma batalha onde decidirá seu futuro. Durante o que podem ser seus últimos momentos com a Espada e com Alyse, ele se pega pensando sobre a validade de suas aspirações. Acompanhe o conto no link a seguir:
http://www.spellrpg.com.br/forum/viewtopic.php?f=24&t=1067
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O Mistério de Saint Maria - Parte X

Mensagempor Lobo_Branco em 08 Jun 2008, 17:28

Lendo minhas partes antigas, vi o quanto eu evolui....acho...

Lala, senhora minha, agora é a vez de quem?!

ps: Moça, os cavalos, esquecemos de corrigir os cavalos... :ops:

Abração!
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O Mistério de Saint Maria - Parte X

Mensagempor Elara em 13 Jun 2008, 17:39

Laharra,

Você me paga! Passei duas semanas para fazer a sinpose de todas as partes desse conto! XD Tá disponível. É possível conferir lá na primeira parte do conto. :cool:

Lobo_Branco,

Relendo, não achei os cavalos tão incoerentes assim... :roll: Bom, vou postar a décima parte agora e você é quem abre a fase dos novos escritos. No caso, seu prazo para postagem vai até o dia 28 deste mês. Boa sorte!

Chero!

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O Mistério de Saint Maria – Parte X


Elara


Estrebaria Menarien, 15 de Nivoso de 1810

Francis acorda com as batidas fortes na porta. Tivera uma noite ruim, definitivamente. Sentou-se na cama ainda sonolento e olhou para o travesseiro. O ás de espadas repousava no lugar onde sua cabeça estivera durante a noite. O frio umedeceu algumas cartas que caíram no assoalho do cômodo, deixando-as difíceis de serem retiradas. Francis dormira sem guardar o baralho. Estranhamente, as cartas formavam uma espécie de caminho sinuoso até a porta, mas o criado não deu muita importância ao fato, já que as batidas tornavam-se cada vez mais insistentes e irritantes. Foi abri-la.

O soldado do outro lado, impaciente, preparava-se para uma nova saraivada de batidas quando viu o trinco da porta mover-se. No corredor, apenas o vento frio sibilava ante os movimentos firmes do oficial napoleônico. Era uma manhã branca, gélida, invernal.

Francis surpreendeu-se em ver que batia à porta não o seu tutor, mas um soldado. Tentou parecer simpático, passou a mão nas roupas como quem tenta desamassa-las e em seguida estendeu a mão ao oficial em cumprimento cordial.

— Bons dias. O capitão Piccard o aguarda na sala-de-estar. – disse o soldado secamente sem cumprimentar a mão estendida.
— Bons dias. O que está acontecendo? – Francis, constrangido, recolhe a mão, enfiando-a no bolso da calça preta enxovalhada.
— O capitão Piccard está investigando as mortes ocorridas. Ele precisa de sua presença para responder algumas perguntas.
— Certo. Vamos.

Dizendo isso, o oficial abriu espaço para que Francis passasse à sua frente no corredor. Uma lufada de vento frio enregelou a espinha do soldado, que murmurou algo sobre o frio insuportável daqueles dias. Francis apenas assentiu com a cabeça.

A alguns passos dali, na sala, Jonas Menarien esfregava insistentemente as mãos enquanto Piccard analisava cada poeira nos móveis e juntava alguns papéis que estavam soltos em cima do balcão. Mais três oficiais faziam guarda em lugares diferentes do cômodo.

— Bons dias. Francis Menarien, correto? – Eleric tirou os olhos dos papéis por um momento enquanto falava com o criado recém-chegado.
— Sim, correto.
— Sente-se, por favor. – indicou o sofá onde Jonas estava, cabisbaixo.

Francis sentou-se ao lado de seu tutor, que lançou um olhar de cumplicidade e pavor. Suas mãos estavam suadas, apesar do frio. Sua tensão era claramente perceptível. Francis desviou os olhos.

— O que os senhores sabem a respeito dos assassinatos ocorridos nas proximidades?
— Nada, capitão. Não sabemos de nada. – Jonas atropelava as palavras.
— Francis, onde estava na tarde do dia 13?
— Como a maioria do povo desta cidade, estava na praça principal observando vossa comitiva chegar aqui.
— E antes de chegarmos?
— Estava aqui na estrebaria ajudando meu tutor.
— A que horas o senhor se dirigiu à praça?
— Logo após a saída de vossa comitiva dos arredores da estrebaria.
— O senhor conversou com alguém na praça?
— Não, senhor, não que me lembre neste momento. – Francis respondia friamente às perguntas, apesar de estar bastante preocupado o tom vacilante de seu tutor.
— Sr. Jonas Menarien, onde o senhor dormiu na noite do dia 13?
— No meu quarto, no andar de cima da estrebaria, capitão. – a voz saía trêmula.
— O senhor ouviu algo suspeito?
— Não capitão. Meu sono é muito profundo, não há nada que eu escute quando adormeço.
— Francis, onde dormiu na noite do dia 13?
— Na estrebaria, no quarto próximo ao de meu tutor.
— E também não ouviu nada?
— O que escutei foram barulhos de cavalos correndo, imaginei que fizessem parte de alguma ronda ou coisa do tipo. O capitão me escuse a ignorância, mas não conheço nada de operações militares.
— Certo. O assassino que matou nossos oficiais, asseguro que não é o mesmo que raptou as donzelas. Gostaria de adverti-los que o próprio Napoleão oferece a quem delatar o traidor, esse vil assassino, um fim-de-semana em Paris, com salvo conduto para iniciar uma nova vida na metrópole. Lembrem-se que quem trai a nós, trai ao Império. Vou levar estes tratados que encontrei no balcão para análise.
— Ca-capitão... Preciso desses tratados para negociar... – Jonas estendia as mãos a Piccard como que para receber os papéis de volta.
— Garanto que o senhor não terá interesse em criar abelhas nessa área inóspita. À propósito, esses oficiais ficarão dentro da estrebaria investigando os cômodos por todo o dia de hoje. Até mais. – Ele apontou para os oficiais que faziam guarda no cômodo e em seguida saiu em direção ao branco da neve.

Francis voltou ao seu quarto vacilante. Era uma boa oportunidade de começar algo novo, diferente. Porém, delatar Pedro Alencar era também delatar seu tutor.

...

Piccard voltava à taverna cavalgando com dois oficiais quando avistou no largo da praça a Srta. D’anjou. Vagarosamente aproximou-se e ainda montado ao cavalo perguntou:

— Ora, que faz uma formosa donzela como a senhorita passeando sozinha na rua nesta manhã? Não te amedrontam os últimos acontecimentos?
— Oh, sim, capitão Piccard, porém precisava arejar a mente. Não agüento mais ficar trancafiada naquela casa. Todos os lugares relembram minha querida mãezinha...
— Ah, que indelicadeza a minha – disse Eleric enquanto descia de seu cavalo. – Permita-me cumprimenta-la.

Em seguida beijou-lhe a mão direita sem desviar os olhos da sua alva tez. A dama enrubesceu imediatamente e procurou desviar o olhar para direção oposta. Começou novamente a caminhar ao redor da praça. Piccard dispensou os oficiais e o cavalo, aproximando-se da dama.

— Como estão as investigações, capitão?
— Srta. D’anjou, estão caminhando, porém não posso adiantar-lhe muito. Estamos interrogando algumas pessoas ainda. – disse Piccard, evasivo.
— Há previsões para a descoberta do assassino?
— Não, por hora só podemos adiantar que são pessoas distintas e crimes distintos, o caso do oficial e o de sua mãe e das demais donzelas.
— Oh, que infortúnios passamos nesta cidade! Por gentileza, acabe com isso, nobre capitão. – ela fitou o olhar de Eleric e parou em seu lado.
— Farei o possível, Srta. Alaíde, te dou minha palavra.
— Tome, vai lhe dar sorte. Até mais. – Alaíde entregou um pequeno pingente dourado em forma de rosa. Em seguida virou-se e caminhou na direção de sua casa, enquanto Piccard observava envaidecido o presente.

— Uma bela donzela, não? – uma voz surge por trás de Piccard.
Eleric, surpreso, subitamente esconde o pingente no bolso do uniforme.
— Meu bondoso D’Athos, quão sorrateiro és que consegue aproximar-se sem que ninguém perceba. Deste-me um susto, sabia? – disse o capitão, enquanto se virava enrubescido.
— Estavas distraído, meu capitão. Essas belezas femininas inebriam nossa alma, eu entendo. – disse Armand em tom de troça.

Cidade de Saint Maria Douleurs, manhã do mesmo dia

Enquanto isso, na residência dos Rochambeau, Loup-Marie acordava atônito, desesperado. Lágrimas corriam em sua face com a imagem de Joannah ensangüentada fixa em sua mente. A noite tivera sido dura, fora difícil explicar a seu pai que não sabia de onde vinha a carta de baralho, embora soubesse perfeitamente de onde vinha.

Seu sangue fervia apenas com a lembrança do pesadelo. Foi até a pequena bacia no canto do quarto e daquela água parada no recipiente, molhou o rosto. O líquido gelado percorreu suas têmporas e esfriou sua mente. Fechou os olhos e respirou profundamente na tentativa de esquecer o maldito sonho.

Andou até o espelho. A imagem não saía de sua cabeça. Ficou estático por mais alguns minutos observando seu reflexo. Já fora mais jovem. Hoje era apenas um par de olheiras. Um vulto passou na janela atrás de si.

— Quem está aí?

Os olhos verdes de Joannah se mostram no canto do vidro. Loup-Marie esfregou os olhos e quando olhou novamente, nada mais havia.

Espanha, 15 de Nivoso de 1810

Joannah acordara suada. Um pouco de sangue molhava o lençol branco, indicando que seu período menstrual havia começado. Levantou-se e buscou um pouco d’água no ribeiro ao lado do acampamento. Uma sensação ruim percorria sua alma. Um mau presságio envolvia sua mente.

Ela ajoelhou-se e olhou fixamente para a água, que ainda se encontrava congelada em alguns pontos do ribeiro. Concentrou-se. Respirou fundo e fechou os olhos por alguns instantes. Murmurou algo e olhou novamente para a água do regato. O que via não era mais seu reflexo. Estampado no ribeiro estava a imagem de Loup-Marie, que atônito olhava-se em um espelho. Seu semblante parecia cansado, seus cabelos estavam desgrenhados. Continuou observando até que uma voz quebrou a visão.

— Onde está seu pai? – um oficial espanhol abordou Joannah, puxando-a pelo braço.
— Solte-me. Ele agora dorme. Viajamos dois dias seguidos. – ela desvencilhou-se do oficial num gesto de rudeza.
— Preciso saber o que ele descobriu, e depois, quero rasgar essa sua roupa e alcançar o gozo do seu corpo. – ele roçava as mãos nos seios de Joannah enquanto falava.
— Ah, você quer? – Joannah começava a passar as mãos por dentro da saia como que procurando algo entre as pernas.

Em um único movimento, retirou as mãos de dentro da saia e as passou no traje do oficial. As mãos, cujos dedos estavam ensangüentados do carmim menstrual, sujaram a indumentária do soldado, que furioso, chamou dois de seus companheiros que seguraram os braços de Joannah, que tentou a muito custo livrar-se sem conseguir.

Eles a levaram para um local mais afastado do acampamento e, à beira do regato violentaram-na, satisfazendo nela seus desejos sexuais de toda ordem, de sorte que ela não podia gritar, porque taparam-lhe a boca com um lenço. Depois, espancaram-na, socando seu rosto até que sangrasse deveras e caísse inconsciente. Então, deixaram seu corpo seminu ao relento matinal, nas margens do regato.
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O Mistério de Saint Maria - Parte X

Mensagempor Lady Draconnasti em 13 Jun 2008, 19:42

Er... te odeio por esse último pedaço, Lalinha ^^

Estarei acompanhando as novas partes.
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O Mistério de Saint Maria - Parte X

Mensagempor Lobo_Branco em 16 Jun 2008, 20:39

A incoerência dos cavalos se dá ao dato de que eles eram destinados geralmente a altos cargos por conta do alto preço de compra-los e mantê-los, ñ era comum ter td um regimento a cavalo... :b

Bem, eu tentarei postar antes, mas só terei tempo mesmo depois do dia 3 de julho, pq o estagio tá pegando, mas fa-lo-ei meu máximo!!!!


Abraços!!!
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